Ttulo: Armadilha de um Amor.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1987.
Ttulo Original: The Love Trap.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Ana Paula ruas.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
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BARBARA CARTLAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo

Armadilha de um Amor
"Ela quer mat-lo, eu sei que ela quer mat-lo. Janet
rompeu em lgrimas enquanto falava. Os braos do
duque cingiram seu corpo e, sem parar para pensar, os
lbios dele desceram sobre os seus
e a fizeram docemente cativa. O duque de Wynchester teve a sensao de estar
vivendo um sonho... ou pesadelo? Por pouco no tinha cado morto, envenenado
por sua bela e fogosa amante. Se no fosse pela astcia de Janet, nada o teria
salvado da ardilosa armadilha.
Mas o caminho ainda estava perigoso: a cruel mulher
preparara uma cilada ainda mais terrvel para destru-lo!

Barbara Cartland
Armadilha de um Amor
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: The Love Trap
Copyright: (c) Cartland Promotions Ltd. 1986
Traduo: Anna Terzi Giova
Copyright para a lngua portuguesa: 1987
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima n  200 - 3  andar
CEP 01452 - So Paulo - S. P. - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica Ltda. e impressa na Editora Parma

NOTA DA AUTORA
Na histria da herborstica, a beladona  um dos mais antigos venenos. Ao mesmo tempo, em doses homeopticas, pode ser um remdio valioso; e quantidades mnimas 
de uma tintura feita com os frutos da beladona atuam profilaticamente contra a escarlatina.
No obstante, a beladona  perigosa e seu nome cientfico, Atropa,  o mesmo de uma das Parcas que guardavam as tesouras que serviam para cortar o fio da vida humana.
Na Inglaterra,  conhecida como Deadly Nightshade, que significa sombra mortfera da noite. Nunca deve ser cultivada em jardins frequentados por crianas, pois elas 
so tentadas a experimentar seus frutos chamativos com suas cores vivas.
O Doutor Fernie diria que uma das peculiaridades do envenenamento por este fruto  a completa perda da voz, trejeito esquisito das mos e dos dedos e uma ondulao 
para frente e para trs do corpo. Afeta em particular o crebro e a vescula e influencia as extremidades,
 tornando-as frias, e a viso, que sofre todas as formas de iluses ticas.

CAPTULO I
O duque de Wynchester sentiu que ia cair no sono. Percebeu que era tempo de ir embora.
O sono no o surpreendia, pois seu namoro com a mulher que agora estava a seu lado havia sido apaixonado e insacivel desde as primeiras horas da noite, quando haviam 
ido para a cama.
Em todos os seus numerosssimos casos amorosos, que eram incontveis, o duque nunca encontrara algum to apaixonada e vida quanto Olive Brandon.
O duque era muito exigente na escolha das mulheres s quais concedia seus favores e, embora logo que a vira pela primeira vez pensasse nunca ter encontrado uma criatura 
mais linda, lady Brandon no o havia atrado a ponto de sentir que devesse envolver-se com ela.
Mas Olive Brandon pensava de maneira muito diferente.
O duque era o homem mais lindo, mais rico e mais importante da corte. Por isso, ela havia determinado, com uma resoluo que crescera mais forte nos ltimos anos, 
que o conquistaria.
Olive havia desenvolvido sua determinao antes mesmo que Londres ficasse deslumbrada com sua formosura.
Ainda muito nova, havia percebido quanto sua beleza poderia favorec-la.
Assim que chegara a Londres para uma temporada na Corte, trazida por seus pais, que viviam nos arredores de Gloucester, soube que deveria fazer o melhor uso possvel 
dos dois meses de que dispunha antes de voltar para o interior, pois provavelmente esta seria a nica oportunidade que teria.
Seu pai era um nobre rural caador de raposas, muito popular
em seu condado, mas quase um desconhecido nos crculos elegantes aos quais Olive desejava pertencer.
Sua me tinha relaes na aristocracia, mas a maioria ds damas que conhecia possua filhas na idade de casar e no queria que elas fossem concorrer com outra debutante.
Olive desfrutava de um talento especial para fazer valer sua vontade. Por meio de uma atuao teatral, de lisonjas, splicas e insistncias, conseguia fazer com 
que sua me lhe comprasse os vestidos que quisesse.
Sabia que, no momento em que entrasse num salo de, baile, causaria uma sensao estonteante.
Apesar disso, foram necessrias muita persistncia e astcia para conseguir um marido razoavelmente distinto, j em sua primeira temporada.
Lorde Brandon era vivo com mais de cinquenta anos, mas os olhos imensos de Olive fixaram-se nele hipnotizando-o, e fazendo com que ele se apaixonasse como um jovem 
de vinte.
Olive casara do jeito que havia planejado, com uma cerimnia muito comentada, na Igreja de St. George, na Hanover Square, e uma recepo concorrida na manso do 
lorde em Park Lane. A partir daquele momento, entrou no mundo com que sonhara e do qual ansiava fazer parte.
Era suficientemente esperta para no levantar a menor suspeita em seu marido quando arranjava algum amante, e isso, na realidade, no era muito difcil, pois ele 
se tornara mais idoso, gostando de passar a maior parte de seu tempo pescando e participando de corridas de cavalos.
Frequentemente, suas pescarias o levaram at o extremo norte da Esccia, fato que comportava convenientes e prolongadasausncias. Quanto s corridas de cavalos, 
Olive as julgava um passatempo muito aborrecido, a no ser quando podia exibir-se em Ascot ou Goodwood em alguma reunio elegante.
Tudo estava indo muito bem, e lorde Brandon, apesar de no ser to ardoroso como nos primeiros tempos de casamento, ainda amava sua mulher. Mas isso no impediu 
que ela se interessasse pelo duque de Wynchester, quando o viu pela primeira vez.
Para Olive, teria sido impossvel no not-lo, visto sua cabea e ombros ficarem bem acima dos dos outros cavalheiros que enchiam a sala do Trono no Palcio de Buckingham. 
Tambm o fato de ele estar usando suas condecoraes f-lo parecer aos olhos de Olive como se tivesse sado de um conto de fadas.
Nos primeiros tempos, porm, o duque era muito difcil de compreender.
No s ele era continuamente requisitado pelo Prncipe de Gales em Marlbourough House, onde ela no era convidada, como tambm passava muito tempo tratando e treinando 
os cavalos que ele usava para correr e caar.
Justamente por ser solteiro, era inevitavelmente preferido por todas as anfitris e, como no podia deixar de ser, por todas as mes ambiciosas, que sonhavam com 
que um dia, por algum golpe atordoante de sorte, ele olhasse para alguma de suas filhas.
Na realidade, o duque, aos trinta e trs anos de idade, estava ainda determinado a conservar sua liberdade.
Na alta sociedade por ele frequentada, reinava a convico de que uma mulher, depois de alguns anos de casamento e tendo premiado o marido com um herdeiro e talvez 
dois ou trs outros filhos, estaria livre para se divertir do mesmo modo que o marido sempre fizera, sem que isso levantasse muita celeuma.
Infelizmente, porm, Olive no estava qualificada para fazer parte desta categoria, porque, apesar de ser este um desejo ansioso de lorde Brandon, ela no lhe havia 
dado um herdeiro.
Ela no gostava de crianas e no desejava diminuir a perfeio de sua silhueta, por isso no se preocupava muito.
Ao mesmo tempo, sabia muito bem o que se esperava dela e, embora no gastasse muitas palavras para dizer-lhe, seu marido estava desapontado.
Estava ciente de que George Brandon era fanaticamente orgulhoso, alm de excessivamente ciumento, e que, se tivesse a menor suspeita de que lhe era infiel, faria 
descer sua clera sobre ela, assim como sobre o homem que a tivesse seduzido.
Ficou encantada quando, mesmo sendo somente o comeo de
junho, George foi convidado para uma pescaria que achou tentadora, no Rio Tay, na Esccia.
- Claro que voc deve ir, querido - disse ela. - O conde foi muito amvel em convid-lo; ainda mais por se tratar de um rio em que voc nunca pescou antes.
- Eu gostaria de ir - admitiu lorde Brandn -, mas, ao mesmo tempo, no gosto de deix-la sozinha em Londres.
Olive riu e seu sorriso era como um tilintar de sininhos.
- Mas eu estarei muito bem, querido. Alm do mais, sei como lhe aborrecem aqueles longos banquetes, noite aps noite, que normalmente o deixam com indigesto.
Isto era verdade, e lorde Brandn no precisou ser muito mais persuadido para aceitar o convite do conde de Kilkenny.
Quando ele partiu para a Esccia, o corao de Olive pulou de alegria.
Era exatamente o que ela estivera esperando. Durante os ltimos trs meses, estivera seduzindo, encantando e, - sua moda, enfeitiando o duque at ele achar ser 
quase impossvel resistir-lhe.
Na tarde seguinte  partida de seu marido, ela pedira ao duque que fosse jantar em sua casa, mas fora bastante astuciosa para convidar tambm outras pessoas.
Isso no era o que ele havia esperado e ficou muito surpreso quando descobriu que l estavam dois outros casais, conhecidos seus, e os homens, em particular, sendo 
seus amigos.
Eles divertiram-se durante um bom tempo, aproveitando os excelentes manjares e os vinhos que Olive teve o cuidado de no deixar faltar em seus copos. Quando os outros 
partiram, j a uma hora razovel, Olive olhara interrogativamente para o duque.
Ela estava extremamente bonita, num vestido de anquinhas em tule verde, que combinava com o verde de seus olhos e com as esmeraldas em seus cabelos escuros.
Um colar da mesma pedra realava a perfeio de sua ctis de magnlia, to branca como o duque nunca tinha visto em outra mulher.
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Por instantes, ele disse a si mesmo que, mesmo sendo uma mulher realmente bonita, o clmax da noite estava muito obviamente planejado e por demais comum para excit-lo.
Mas Olive ps os braos em volta de seu pescoo oferecendo-lhe os lbios e dizendo numa voz vibrante de paixo:
- Vai embora sem desejar-me uma boa-noite? - Pareceu-lhe ridculo pedir que as coisas fossem de outro jeito.
Quando, muito mais tarde, ele a deixou, teve de admitir que no estava desapontado.
com certeza, no era uma mulher comum c, quando seus olhos verdes fitaram-no brilhando, mais parecia um tigre cuja presa no teria chance de escapar.
Em seu desejo de auto-afirmao e em sua determinao de no se deixar dominar por nenhuma mulher por mais atraente que fosse, aceitou um convite para jantar novamente 
com ela, somente trs dias depois.
Desta vez estavam sozinhos.
Olive tentou agora tornar sua conversao brilhante e divertida, e ele pensou que o duplo sentido provocador que emprestava  sua fala estava  altura de qualquer 
francesa.
Mais uma vez ela estava vestida de maneira encantadora, e o duque pensou que, se no estivesse assim trajada, teria a figura de uma deusa grega e que seria desumano 
um simples mortal encontrar um s defeito nela.
Desse momento em diante, o duque percebeu que Olive iria com ele, para onde quer que fosse.
Mas agora seu idlio chegava a um fim, pois amanh lorde Brandon estaria de volta. Novamente o duque sentiu a cabea pesada e, quando jogou para trs o leno de 
seda debruado de fitas, preparando-se para levantar, profundamente angustiada Olive perguntou:
- Hugo, voc no est indo embora, est?
- J  hora de eu voltar para casa. Obrigado, Olive, por ter estado mais excitante que nunca. Sentirei sua falta amanh  noite.
Enquanto falava, ele ficou de p comeando a vestir-se, rpido
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e eficiente, no precisando para isso, como tantos cavalheiros elegantes, da ajuda de um valete.
Olive ergueu-se um pouco mais de encontro aos travesseiros macios bordados com suas iniciais coroadas com os smbolos herldicos de seu marido e disse:
- H uma coisa, Hugo, sobre a qual queria falar com voc. O duque no estava prestando muita ateno. No relgio da lareira vira que eram quase duas horas. Ele havia 
mandado vir sua carruagem busc-lo exatamente quela hora, e no gostava de se atrasar.
Apesar de no ter avisado Olive, estava de partida para o campo.
Imaginava como se sentiria aliviado do calor perfumado do quarto dela quando recebesse o ar limpo no rosto, e sabia que em sua manso em Herfordshire seus cavalos 
estariam  sua espera.
Eles o forariam ao duro exerccio de que precisava para repor em ordem sua condio fsica.
Enquanto dava o lao na gravata, podia ver o rosto de Olive no espelho.
- Querido, voc bem sabe que eu te amo - estava ela dizendo. - E, por isso, decidi que amanh, quando George voltar, lhe contar sobre ns dois.
Por um momento o duque pensou no ter ouvido direito.
Ento virou-se e viu Olive, sentada ereta, os cabelos escuros caindo sobre os ombros e revelando toda sua deslumbrante beleza contra as pesadas cortinas da cama.
- Do qu voc est falando? - perguntou, depois de um momento.
Falou com leveza, como se pensasse que ela estivesse contando uma piada e ele tivesse perdido o cerne dela.
- Hugo, quero casar com voc - falou Olive com firmeza. - Sei que, assim que George souber que voc foi meu amante, ir querer divorciar-se.
Durante alguns instantes ele quedou-se num silncio estupefato. Depois, como se estivesse falando de coisas j ouvidas antes, disse:
- Sinto muito, Olive. No sou feito para ser marido de ningum e estou certo de que, se casasse com voc, seria o marido mais censurvel entre todos.
- Pensei muito no assunto, Hugo - respondeu Olive, e havia uma nota de frieza em sua voz. - Eu te amo, eu te amo mais do que achava possvel amar algum, e por isso 
pretendo me casar com voc.
- Mas, estando voc j casada, sinto muito no ser possvel
- respondeu o duque friamente. - De qualquer forma, no acredito que seja to louca a ponto de jogar fora uma fortuna em troca de uma sombra. Como sabe, uma mulher 
divorciada  banida irremediavelmente da alta sociedade que voc preza tanto.
- Concordo quanto  sociedade inglesa - retrucou Olive.
- Mas voc esqueceu que, fora desta ilha enfadonha, existe a sociedade internacional. Como duquesa de Wynchester, serei certamente aceita em Paris e Roma e, sem 
dvida, em qualquer pas da Europa. Alm disso, lembro que sua av era russa e estou certa de que, se fssemos a So Petersburgo, seramos recebidos de braos abertos.
Ouvindo-a falar com firmeza, numa voz clara e decidida, bem diferente do tom apaixonado que ela usava ao falar-lhe no comeo da noite, o duque percebeu que estava 
adentrando-se num pesadelo.
S podia esperar que o que ela estava dizendo fosse parte de alguma brincadeira de que ele era o alvo, mas havia em seus olhos uma luz cautelosa, e seu corpo estava 
tenso quando atravessou o quarto saindo de perto da lareira para sentar-se de frente para ela:
- A que vem tudo isso agora, Olive? Est se divertindo  minha custa?
- Ao contrrio, Hugo. Pensei nisso com muita seriedade.
Quero casar com voc. Quero ser sua legtima esposa e, uma vez
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transcorrido o aborrecimento do divrcio e do primeiro ano, ns seremos muito, muito felizes.
- Voc est louca! De um lado, voc perde sua posio aqui na Inglaterra e, do outro,  duvidoso que os franceses ou qualquer outro povo da Europa, que so muito 
esnobes, queiram aceit-la.
- Mas querido, aceitaro voc - argumentou Olive com doura. - Consequentemente, no final, me aceitaro.
Houve uma pequena pausa antes que o duque voltasse a falar, e havia agora em sua voz uma ponta de raiva:
- J imaginou se eu no casar com voc?
Os olhos de Olive estreitaram-se e ele viu neles uma centelha.
-  por demais cavalheiro, meu querido Hugo, para no fazer de mim uma mulher respeitvel. Eu penso que, quando
George conhecer a verdade, desafiar voc e que, apesar de ser proibido por lei, haver um duelo do qual inevitavelmente voc sair vitorioso.
Ela sorriu antes de acrescentar:
- Ento, depois do divrcio, poderemos nos casar em qualquer parte do mundo que voc escolher e ficaremos juntos pelo resto da vida.
E falava como se fosse uma criana a repetir uma lio muito bem aprendida, com a certeza de ser elogiada pela professora.
O duque levantou-se da cama e foi at a Janet para abrir as cortinas como se estivesse com falta de ar.
Era-lhe difcil acreditar no que acabara de ouvir. Parecia alguma inveno desvairada de sua imaginao.
Enquanto estava a duvidar de sua prpria lucidez, escutou Olive dizendo atrs dele:
- Eu te quero, Hugo, quero tanto que nada mais importa, contanto que eu seja sua mulher e que voc possa ter-me no somente por uma ou duas noites roubadas, mas 
para sempre!
O duque prendia a respirao. Tantas mulheres haviam lhe dito:
- Se somente pudssemos continuar assim para sempre! 14
E invariavelmente em seus lbios surgia a pergunta: - Voc me amar sempre como agora?
"Por que, por todos os santos, perguntava-se com raiva, elas deviam sempre querer amarrar um homem, mant-lo preso tolhendo-lhe a liberdade? "
Mesmo assim, nunca, em seus muitos flertes, se havia encontrado numa situao to enervante como a que estava enfrentando.
Enquanto seus olhos perscrutavam a noite l fora, estava bem ciente de no desejar casar-se com Olive e de que, de fato, ela era o ltimo tipo de mulher que ia querer 
como esposa.
Resolvera que no se casaria at ser muito mais velho, por isso no lhe havia ocorrido pensar muito sobre a classe de mulher que gostaria para guardar seu nome e, 
naturalmente, seus filhos.
A nica coisa porm que sabia, segura e indiscutivelmente, era que, ao menos, sua mulher no seria parecida com Olive Brandon nem com as outras mulheres que o haviam 
perseguido.
No podia supor nada mais desagradvel do que imaginar quo rapidamente sua mulher arranjaria um amante ou suspeitar se ela j estaria seduzindo um de seus amigos 
com indiscries que ofenderiam seu orgulho e a honradez de seu nome.
Agora que pensava nisso descobriu que, no fundo, sempre desprezara as mulheres que enganavam seus maridos, caindo em seus braos, usualmente com pressa excessiva.
Cada vez que. enganava outro homem tomando a mulher dele como amante, embora se recusasse a admiti-lo, sentia como se ele tambm estivesse sendo humilhado.
Uma ideia muito contrastante, ele sabia, causaria riso a maioria de seus amigos e, principalmente, ao grupo de desordeiros que giravam  volta do prncipe de Gales, 
que traa habitualmente sua linda esposa dinamarquesa.
O prncipe havia estabelecido o ritmo e a sociedade seguira-o cegamente, mas, quando o duque pensou nisso, soube que em sua mente sempre existiram algumas reservas 
a este propsito.
Estava decidido a libertar-se da armadilha que Olive Brandon
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havia armado para ele. S que no via como escapar naquele
momento.
Fechou as cortinas e, virando-se, disse numa voz bastante
calma:
- Penso, Olive, que, antes de voc fazer algo precipitado, deveramos falar sobre isso. Agora no temos tempo, pois ambos estamos muito cansados para tomar decises 
bsicas sobre nosso futuro.
Pela expresso dos olhos dela percebeu que, de certa forma, estava desconcertada com a maneira de ele argumentar. Depois de algum tempo, ela falou:
- Naturalmente, querido; se  este o seu desejo eu estou de acordo. George chegar pela manh com o trem noturno. No direi nada at de noite. Se voc vier na hora 
do ch, quando ele estiver no clube, poderemos ento fazer nossos planos.
- Sinto no poder vir para o ch amanh - respondeu o duque, com vagar -; estou de partida para o campo, mas deverei estar de volta depois de amanh na hora do almoo.
- Voc est indo para o campo a estas horas da noite? exclamou Olive.
- H l alguns cavalos que esto sendo treinados e eu quero observ-los de perto - respondeu o duque, com displicncia.
No acrescentou mais nada e da a pouco Olive disse, muito
sria:
- Muito bem, esperarei por voc.
- Nesse meio tempo, no diga nada a seu marido - insistiu o duque.
- Se isto for de seu agrado, estou de acordo. Mas eu no tenho nenhuma inteno de mudar meus planos. Vamos deixar isto bem claro, somente para o caso de voc pensar 
que podemos continuar com as coisas como esto.
O que o impressionava era o fato de no ter nenhuma inteno de continuar com ela de alguma maneira e de sentir que, no momento, do que mais gostaria era estrangul-la 
com suas prprias mos, em lugar de
 acarici-la.
Mas o duque, ao longo dos anos, havia adquirido um firme
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autocontrole; acostumara-se a obedecer  sua mente e no s suas emoes.
Olive, deitada na cama macia, no podia imaginar a fria que o estava invadindo.
- Muito bem - disse, forando um sorriso. - Virei visit-la na quarta-feira. Procure estar sozinha.
- Naturalmente, querido. Voc acha que eu ia querer de outra forma? Voc pode imaginar, meu bem, como tudo ser perfeito quando pudermos estar juntos para sempre, 
sem ningum entre ns?
E, assim dizendo, ergueu ambos os braos num gesto de abandono, e o duque pegou primeiro uma das mos, depois a outra e as beijou.
- At logo, Olive. Durma bem e, mais uma vez, obrigado por toda a felicidade que tivemos juntos.
- Nossa felicidade est s comeando - murmurou ela. Uma felicidade, meu maravilhoso amor, que ser nossa por todo o sempre!
Sempre falando, atraa para si o duque, mas ele largou suas mos e, afastando-se sem pressa da cama, caminhou para a porta.
- At quarta - despediu-se tranquilamente. - E, at que ns tenhamos tempo de falar, tudo fica em segredo?
Ela percebeu que era uma pergunta e respondeu:
- Eu prometi que seria at quarta. Depois disso eu estarei com voc.
No tinha certeza de que ele ouvira suas ltimas palavras, porque j havia sado e fechado silenciosamente a porta atrs de si.
Enquanto descia as escadas, refletia em como havia sido louco de acreditar em Olive quando dizia que estariam seguros fazendo amor em sua prpria casa, na ausncia 
do marido.
Mesmo que ele negasse as acusaes, o que seria difcil, estas seriam confirmadas pelo testemunho dos serviais que atenderam ao jantar e pelo criado da noite que 
agora o esperava no vestbulo para faz-lo sair.
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"Como pude ser to idiota?", perguntava-se o duque atravessando a porta da casa, que o criado mantinha aberta para ele, e descendo a escadaria at seu cabriole de 
viagem que j o estava
esperando.
Havia chegado em seu carro fechado, puxado por dois cavalos, mas, tendo de ir para o campo, mandara que lhe trouxessem
o cabriole.
Puxado por quatro cavalos, com ele alcanaria sua manso no campo, em Hertfordshire, dentro de hora e meia. Ento iria para a cama e refletiria sobre o que o esperava 
na quarta-feira. Seu criado, envergando a libr de Wynchester, ajeitou uma manta sobre seus joelhos assim que o duque se acomodou no confortvel assento. Fechada 
a porta, o homem subiu na boleia e sentou-se ao lado do cocheiro.
Todo o horror do que acontecera invadiu novamente o duque, que se sentia como um animal selvagem preso numa armadilha da qual no podia fugir.
Como saberia, como poderia ter imaginado por um segundo sequer que Olive dramatizaria seus sentimentos por ele ao ponto de pedi-lo em casamento?
Olive no estava querendo isso somente porque pensava que o amava, muitas mulheres tinham lhe dado seu corao, mas tambm porque, como sua mulher, a posio dela 
seria muito diferente da atual.
Mesmo pensando que no pudesse mais ser aceita na alta sociedade inglesa, havia muitos lugares no mundo onde o duque de Wynchester seria bem recebido com sua mulher, 
embora pudessem falar mal dela em particular.
Se, como Olive esperava, lorde Brandon o desafiasse para um duelo, o nome dela seria alvo da bisbilhotices de uma extremidade a outra de Londres.
Naquelas circunstncias existia uma lei, que no estava escrita, que dizia que o mnimo que um cavalheiro podia fazer era oferecer sua proteo  mulher que por 
causa dele havia sido difamada. O duque tambm seria citado publicamente no processo do divrcio, que deveria transitar pelo Parlamento. E ele no
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teria nenhuma oportunidade de escapar do Servio de Casamento que viria logo a seguir.
Sentia-se aprisionado e acuado e, para relaxar, tirou a manta que cobria seus joelhos e levantou os ps, apoiando-os com firmeza sobre o pequeno assento estofado 
 sua frente.
com este movimento, percebeu que o assento cedia um pouco, sinal de que a caixa que estava embaixo no havia sido presa convenientemente.
Isto o incomodou porque, quando fazia viagens mais longas, seus valores invariavelmente eram escondidos naquela caixa, e ele pensou que da ltima vez em que foi 
esvaziada no fora aferrolhada como devia ser.
Mas isto mereceu dele somente uma leve irritao que logo esqueceu para voltar imediatamente ao problema de Olive. Tarde demais se dava conta de que sempre houvera 
nela algo que no o atraa.
Havia-o seduzido e confundido com sua paixo e suas insaciveis exigncias amorosas que no o deixavam pensar com clareza sobre isto que, agora sabia, sempre estivera 
presente.
O duque j fora fascinado por vrias mulheres, por algumas das quais alimentar paixes extremas.
Todavia, sempre soubera que seus sentimentos no eram aqueles do amor verdadeiro que havia sonhado quando jovem, quando prometia a si mesmo no se casar a no ser 
com uma mulher a quem amasse com sinceridade.
Talvez fosse o sangue russo em suas veias que lhe fazia exigir mais que a afeio e o respeito que nos crculos ingleses eram considerados amor.
Ele pedia algo que fosse muito mais intenso, muito mais espiritual.
Sua av, uma princesa Romanov, havia-lhe explicado o significado do amor em seu pas.
- O homem da Rssia - dizia ela - ama com a alma. O amor  para ele algo que est bem ciente e de que no se envergonha de falar, como os ingleses. Ele pode, claro, 
amar apaixonadamente com seu corpo, mas, quando encontra uma mulher que
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ame verdadeiramente, entrega toda sua alma. Este, meu querido Hugo,  o amor que todos buscamos e que acreditamos vir de Deus.
O duque era muito novo quando sua av lhe explicara isto, mesmo assim nunca havia esquecido.
Muitas vezes desejara ter-lhe perguntado se pensava que ele um dia encontraria uma mulher a quem pudesse entregar sua alma e que, naturalmente, o amasse da mesma 
forma.
Mas sempre lhe ofereceram algo muito diferente e, enquanto as mulheres jogavam os coraes a seus ps, ele sempre soubera, sem perguntar, que as que lhe falavam 
de amor continuavam hermeticamente fechadas em si mesmas.
Nunca, em hiptese alguma, elas fariam algo que pusesse em perigo ou manchasse sua posio na sociedade.
Aquela era a prova, disse a si mesmo, de um amor basicamente emocional e que deveria ser mantido em segredo, sem ser revelado; no entanto, sua av estivera falando 
de um amor bem diferente: um amor para o qual o mundo poderia ser perdido e nunca lastimado.
De qualquer modo, sabia no ser este o tipo de amor que Olive lhe oferecia.
No fosse ele o duque de- Wynchester e muito rico, nem por um instante ela teria cogitado a ideia de suportar o escndalo que o divrcio acarretaria.
Dizia agora a si mesmo que deveria ter adivinhado quo egosta, astuta e calculista Olive era.
Olhando para trs, pde relembrar pequenas coisas que ela dissera, que poderiam, tivesse sido mais astucioso, t-lo avisado da verdade.
Em lugar disso, fora embalado na crena de que o que os unia era um caso exatamente igual aos outros dos quais participara: o prazer de duas pessoas que se desejavam 
fisicamente e que, quando acabava o prazer, poderiam ser amigas sem recriminaes.
Estivera errado, completamente errado, mas o que poderia fazer agora?
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De repente, todo o autocontrole adquirido durante trinta e trs anos de vida pareceu rebentar.
E queria gritar alto toda sua frustrao e, como j lhe ocorrera, estrangular Olive antes de ela contar para o marido, como pretendia, o qu havia acontecido entre 
eles.
Esta confisso, tinha certeza, teria desencadeado os acontecimentos mergulhando-o num inferno de desalento.
Como poderia suportar deixar a Inglaterra e tudo o que ela representava? Como poderia virar as costas a seus cavalos, suas manses e, acima de tudo, a seus amigos?
Nenhuma mulher poderia compensar este sacrifcio, mesmo que ele quisesse faz-lo.
Qualquer coisa que Olive pudesse dizer sobre os prazeres que encontrariam em outros pases, e ele at concordara que pudessem ser considerveis, ainda assim, ele 
sentiria saudades da terra  qual pertencia e do respeito e carinho de seus parentes, e eles eram tantos, que o olhavam como ao chefe da famlia.
- Deus, ajudai-me a sair desta! - rezou em voz alta, e era uma prece que brotava do fundo do seu ser.
Estava mesmo dizendo essas palavras, quando percebeu que algo estava acontecendo por baixo de seus ps; perguntou-se o que poderia estar ocorrendo.
Ento viu a almofada levantar-se e abrir-se a tampa da caixa que estava embaixo.
Sumamente surpreso, o duque abaixou os ps e inclinou-se para a frente a fim de observar melhor o que estava acontecendo.
com espanto, entre a almofada e a caixa, o duque pde ver aparecer uma mo.
Pensou que estava imaginando coisas, at que a tampa da caixa, levantando-se por completo, permitiu que ele visse, indistintamente, mas com certeza um rosto.
Ele endireitou-se:
- O que diabos voc est fazendo a? - perguntou. Uma voz fina, muito assustada, respondeu:
- Sinto muito... realmente muito, mas estava... sufocando!
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Por um momento, o duque quedou-se silencioso, pasmo. Ento falou:
- Voc no respondeu  minha pergunta, o que est fazendo aqui?
- Eu o ouvi dizer - respondeu a voz -, quando chegou  manso de lorde Brandon, que mais tarde iria para o campo. e  onde eu quero ir.
O duque lembrou-se de ter dito a seu criado quando este lhe abria a porta da carruagem:
- Assegure-se de que o cabriole esteja aqui s duas. Irei direto para o castelo certificar-me de que os cavalos esto bem.
- Sim, Vossa Alteza - havia respondido o homem.
O duque percebeu, nesse meio tempo, o que o rosto ainda o observava da caixa aberta na sua frente e disse com brusquido:
-  melhor voc sair para que eu possa pr confortavelmente meus ps onde estavam antes.
- Sim. claro.
Algo muito pequeno pareceu engatinhar para fora da caixa e sobre o piso da carruagem, e, quando a luz da lua o iluminou, o duque descobriu com espanto tratar-se 
de uma moa.
Pensara que era um menino, porque, lembrava, ainda jovem, ele muitas vezes havia desejado fugir de seus tutores e presumia que algo parecido estivesse acontecendo.
No entanto, de ccoras sobre a manta que ele havia jogado fora de seus joelhos, estava, sem sombra de dvida, uma moa.
Podia ver que seus olhos eram muito grandes, quase anormalmente grandes, na pequena face, e que tinha cabelos claros, to claros que pareciam fracos e inconsistentes.
Estava ajoelhada sobre o piso, olhando para o duque que declarou:
- Voc estar mais confortvel sentada a meu lado.
Assim dizendo, foi para um canto do assento e ela levantou-se e sentou-se perto dele, mostrando ao fazer isso ser mais alta do que havia pensado num primeiro tempo.
Era de fato surpreendente que ela tivesse conseguido esconder-se naquela caixa.
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Recolheu a manta do cho e colocou-a sobre os joelhos dela enquanto dizia:
- Suponhamos que voc me diga ento a que vem tudo isso. Est fugindo?
Houve uma pequena pausa, ento ela falou:
- Tudo que eu quero  chegar no campo. mas, se quer parar j... posso sair e no precisar preocupar-se comigo. mais do que j fez.
Havia uma ponta de excitao na maneira assustada com que ela falava, e o duque no podia observ-la to claramente como quando estava no cho entre as duas Janets 
 luz do luar.
- O que pensa que pode fazer se eu a deixar aqui nesta estrada desconhecida? - perguntou ele. - Para onde estava indo?
Desta vez ela demorou mais antes de responder.
- Isto.  problema meu!
- Acho que, se voc tomou a liberdade de servir-se da minha carruagem,  tambm meu - disse o duque. - Deve saber que uma mulher no deveria andar por a no meio 
da noite, e sozinha.
- O meu caso  diferente!
Ouviu as palavras com dificuldades, porm sabia que ela as tinha dito.
- Por qu?
No houve resposta e depois de algum tempo decidiu que devia interrog-la na ntegra.
- Qual  seu nome?
- Janet.
- Voc no tem outro nome?
- Isto. no importa.
- Pois eu acho que importa - disse o duque. - Ao menos pode dizer-me quem ?
- Ningum que possa interessar. Somente uma criada da casa de onde acabou de sair.
As palavras ficaram no ar tropeando uma na outra, e o duque percebeu que o que ela havia dito no era verdade.
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Virou-se para encar-la e comentou:
- Sua voz  educada e no se parece em nada com a de uma criada, portanto, diga-me a verdade, quem  voc?
Ela desviou o olhar e ele pde ver seu perfil contra uma das Janets.
Intuiu, sem ter certeza, que sua linhagem era clssica.
- Estou esperando uma resposta, Janet - reforou ele a seguir -, e pretendo t-la.
- Por favor. no faz nenhuma diferena voc saber respondeu ela. - Iria somente complicar as coisas.
- Por que faria isso?
- Porque iria! Por favor, peo-lhe, faa parar a carruagem e deixe-me ir. Deixe-me ir embora exatamente como pretendia fazer quando chegssemos ao seu castelo.
- Pensa que ningum a viu?
- Ningum me viu quando entrei na carruagem. Sou muito pequena.
- No acho voc to pequena como tive a impresso  primeira vista. De forma que me sinto responsvel por voc. Quero saber seu nome.
- Por que motivo. isto lhe importa?
- S por um motivo. Sou curioso - respondeu o duque. Voc no pode imaginar o contrrio? Se voc me tivesse encontrado escondido em algum lugar de sua propriedade, 
no iria querer saber quem sou e por que estava l?
- No seu caso seria diferente.
- Por qu?
- Porque voc  homem e porque a vida no  difcil no que lhe diz respeito.
com tristeza, o duque pensou que, a bem da verdade, nesse particular momento ela era muito difcil, mas, como no adiantaria nada falar disso agora, simplesmente 
respondeu:
- Se voc est com dificuldades, tenho certeza de poder resolv-las. Esta  uma coisa que eu sei fazer bastante bem quando se refere aos outros.
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De um jeito ou de outro, ajudara vrias pessoas durante a sua vida.
Quebrou o silncio que se havia criado entre eles, dizendo:
- Agora, voltemos ao comeo: voc me ouviu dizer ao meu criado que iria partir para o campo nesta noite e resolveu acompanhar-me. Isto significa que voc estava 
na frente da casa que acabamos de deixar e que portanto voc mora l.
- No mais. Agora que me levou embora, nunca mais quero voltar!
- Por que no?
- No posso dizer-lhe e, de qualquer forma. no compreenderia.
- Como sabe se no tenta me fazer entender? Sempre me considerei uma pessoa compreensiva. Gostaria de saber por que voc est fugindo.
- Porque no podia mais ficar, porque estavam me obrigando a fazer algo to indizvel, to horrvel, to assombroso que eu preferia...
A jovem voz parou de falar de repente, e o duque completou mansamente:
- Voc preferia morrer!  isto que ia dizer?
A moa no respondeu. Ele esperou um pouco e depois disse:
- Quero dizer que voc est indo para o campo para se matar? Eu no acredito!
- No tem o direito de fazer perguntas - falou rapidamente Janet. - Somente pare a carruagem e deixe-me ir.
- Est a uma coisa que no tenho nenhuma inteno de fazer - replicou o duque. - A no ser que Voc queira que a leve de volta para Londres, se  isso que voc 
quer.
Ela soltou um grito de horror.
- No, no. absolutamente. nada neste mundo me far voltar!
- Ento, muito bem, continuaremos enquanto voc me diz por que est partindo.
Virou-se para ele e, apesar de no poder v-la, sabia que seus olhos estavam implorando.
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- Por favor, no faa tantas perguntas - pediu ela. - Deixe-me somente ir embora assim que chegarmos ao castelo, e esquea que eu estive aqui e que me viu. De outra 
forma seria embaraoso para voc.
- Quer dizer. quando for chamado para testemunhar? insistiu o duque.
- Isto no tem nada a ver. com voc.
- Mas voc o tornou um problema meu e alguma coisa que eu deverei resolver - retrucou o duque. - Janet, seja sensata. Agora que me contou tantas coisas, conte-me 
o resto.
- Eu no posso dizer nada mais. Eu no devo! - sussurrou ela.
Inesperadamente, o duque levantou sua mo e segurou-lhe o queixo entre os dedos.
Ela fez um pequeno movimento para retrair-se, depois ficou muito quieta.
Viu que ela o olhava com olhos imensos e assustados e pde sentir que todo seu corpo tremia.
- Agora me diga quem  voc - disse. - Desta vez pretendo ter uma resposta.
S por um momento pensou que ela o desafiaria outra vez. Ento, com uma voz quase inaudvel, Janet falou:
- Lady Brandon, a mulher que acabou de deixar, ... minha madrasta!
- Ento voc  filha da primeira mulher de lorde Brandon?
- Sou.
- No pensava que ele tivesse filhos.
- Ele s tem a mim - respondeu Janet. - Como minha madrasta me odeia, estive afastada, no colgio, durante os ltimos quatro anos.
- Que idade voc tem?
- Tenho dezoito anos.
- Dezoito? - repetiu o duque. - com toda sua vida ainda para viver, voc quer destru-la?
- Voc no compreende.
- Ento faa-me compreender.
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- Ela quer que eu me case com um homem horrvel, cruel mesmo, sobre quem eu penso que ela tenha algum... poder. Ele  muito velho, vive perto da casa de papai, no 
campo. Ele tem uma reputao que me assusta.
- E voc disse que ele quer casar-se com voc?
- Minha madrasta surpreendeu-o tentando... me beijar. Eu estava debatendo-me, lutando contra ele, e depois disso ela o obrigou a me dizer. que deveria casar-me com 
ele.
- E voc recusou?
- Eu disse que no faria nada disso. depois vim para Londres a fim de dizer  minha madrasta que esta era uma coisa que no podia fazer.
- O que ela disse?
- Ela disse que eu devia, que no tinha escolha, porque se recusasse ela me obrigaria. e eu sei que preferiria. morrer.
O duque permaneceu silencioso pensando na revelao de Janet. Depois de um breve intervalo, como se sentisse na obrigao de explicar seus atos, ela contou:
- Na noite passada, fui at o parque, mas havia muita gente perto da Serpentine e... um homem quis falar comigo. Estava... assustada, assim corri para casa.
- Foi para o parque sozinha! - exclamou o duque. - Isto foi uma loucura!
- No pude pensar em nenhum outro lugar. O Tamisa parecia muito longe - declarou Janet com naturalidade.
O duque continuou silencioso e, depois de uma pausa, como se precisasse continuar, ela falou:
- Esta noite, estava olhando pela Janet da frente da casa, refletindo que, talvez, se voltasse ao parque muito mais tarde, no haveria ningum. Ento ouvi suas palavras 
para o criado, e eis por que me escondi na carruagem.
- Agora oua - interferiu o duque. - Entendo seu problema, mas, com certeza, voc no precisa casar com este homem que sua madrasta escolheu. Por que no fala com 
seu pai?
- Porque papai no me escutaria. Sempre esteve desapontado 
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comigo porque no era um menino. Penso que foi por isso que ele casou de novo.
O duque pensou que provavelmente as coisas eram assim mesmo e continuou:
- Ainda assim me recuso a acreditar que ele a obrigue a casar com um homem velho, sabendo que voc o odeia.
- Papai sempre faz o que minha madrasta quer - disse Janet -, e eu prefiro mil vezes morrer... a casar-me com o major Hodgson.
-  este seu nome?
- Sim. Ele comprou uma casa perto da nossa, e nossos cavalarios me contaram como ele  cruel com seus cavalos e que bate neles sem misericrdia.
Fez uma pausa para depois quase murmurar:
- Uma das criadas contou-me tambm que ele bateu tanto em sua mulher que ela morreu por causa disso.
O duque sentiu aumentar sua clera.
Se havia uma coisa que ele detestava acima de tudo era a crueldade, e no havia nada mais cruel do que colocar uma jovem que ouvira tais comentrios sobre um homem 
nas mos deste mesmo homem.
O que posso fazer?, ele se perguntava. O que poderia fazer por ela? Ou, por falar nisso, por mim mesmo?
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CAPITULO II
Seguiram viagem em silncio, at que o duque perguntou:
- Por que nunca ouvi falar de voc antes? Pareceu-lhe, embora sem ter certeza, que Janet prendeu a
respirao antes de responder:
- Minha madrasta no queria que soubessem nem que eu existia. Por este motivo fui enviada para o colgio h quatro anos e no me foi permitido voltar para casa nem 
durante os feriados.
- Por quatro anos! - exclamou o duque.
Era difcil para ele acreditar na possibilidade de uma tal situao, mas Janet continuou:
- Era bastante feliz com as freiras, mas era muito solitria porque era a nica menina que parecia no ter famlia.
O duque calculou que ela devia ter quatorze anos quando foi enviada para o colgio e perguntou:
- Que idade tinha quando sua me morreu?
- Tinha doze anos - respondeu Janet -, e por dois anos senti uma falta imensa dela. Depois que minha madrasta chegou, eu estava sempre amedrontada.
- Amedrontada? - perguntou o duque, com surpresa. No houve resposta e outra vez sentiu que ela estava tremendo novamente. Intuindo o motivo, ele perguntou:
- Est querendo dizer que sua madrasta era cruel? Ela batia em voc?
- Batia; ela me odiava porque eu era a filha de papai. Janet murmurou numa voz to baixa, que mal dava para ouvir.
Ela mesma contratou uma governanta para mim que tambm era muito pouco gentil.
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Havia uma tristeza na jovem voz que nunca esperaria ouvir numa mulher. Como se no pudesse suportar este pensamento, disse depressa:
- Deve ter sido um alvio ir para o colgio.
- Eu estava doente e o nosso mdico insistiu para que deixasse a casa - explicou Janet. - Acho que ele entendeu o que estava. acontecendo.
Em silncio, o duque pensava na situao insuportvel em que se encontrava Janet.
Podia compreender como uma moa, depois de ter sido amedrontada pelas surras que levava de sua madrasta e de ser obrigada a casar com um homem cruel que sabia abusar 
do chicote com seus animais, devia estar horrorizada.
Como se soubesse o que estava pensando, Janet disse de repente:
- No deve se preocupar comigo. Deixe-me somente fazer o que quero fazer. Esquea at. de que me encontrou um dia.
- Isto  impossvel - respondeu o duque. - Totalmente impossvel! Agora que nos encontramos e que conversamos, Janet, voc deve compreender que, sendo eu um homem 
no inteiramente privado de conscincia, sentiria que a sua morte, pois  nisso que voc est pensando, seria completamente por culpa minha.
- Como poderia ser? - perguntou Janet. - Vejo agora que foi muito errado esconder-me em sua carruagem, mas no pensei nem por um momento que voc pudesse me encontrar.
- Penso que foi o destino, ou talvez Deus que estava decidido a no permitir algo to ruim como destruir a sua vida declarou o duque com severidade.
Janet deu um pequeno suspiro.
- Voc entende que no existem alternativas? - perguntou ela. - Minha madrasta intimou a voltar hoje para o campo e dizer que concordava em me casar com o major 
Hodgson... no final do ms.
Sua voz tornou-se trmula, e ela acrescentou:
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- Ela me disse que se eu no obedecesse faria com que me arrependesse at de ter nascido.
No havia dvida, pela maneira com que ela disse isto, que a ameaa a tinha amedrontado, e o duque percebeu uma vez mais o que era para ela a ideia de apanhar.
No era nada incomum que os pais batessem em suas crianas ou que permitissem que seus tutores ou governantas o fizessem, mas ele podia entender que para algum 
to frgil como Janet fosse uma tortura que a afetava tanto fsica como mentalmente.
No saberia dizer por que ele tinha cincia disso, mesmo sem poder enxerg-la distintamente.
Pelo jeito dela falar e tambm por sua proximidade, tinha a percepo aguda dela como pessoa. Mesmo que parecesse estranho, conseguia ver por baixo da superfcie 
e conhec-la como indivduo de uma forma que no saberia explicar.
Neste momento, estavam ultrapassando um alto muro de tijolos e logo aps os cavalos pararam dentro de um imponente porto de ferro batido que constitua a entrada 
do castelo.
Parecia inacreditvel que o tempo tivesse passado to rpido.
O duque percebeu ainda que estivera to entretido com as preocupaes que Janet lhe inspirara que se surpreendeu ao chegar sem ter-se entendido como costumava acontecer 
durante as longas viagens.
Mas, agora que estavam em casa, deveria pensar rapidamente no que fazer com Janet.
Como se pensasse a mesma coisa ela virou-se para ele e disse:
- Deixe-me ir... por favor!
As palavras eram um pouco mais de um sussurro e o duque reagiu com firmeza, sua voz pareceu ressoar na carruagem fechada:
- No!
Ela virou-se para a Janet e ele soube, sem que falasse, que estava planejando fugir, assim que a carruagem parasse.
Levantou sua mo e cobriu as dela, sentindo seus dedos tremerem no aperto com o palpitar de um passarinho assustado.
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- Sei no que est pensando - falou ele docemente -, mas se voc fugir eu serei obrigado, sabendo o que pretende fazer, a correr atrs de voc. Meus criados correro 
atrs de mim e tudo ser extremamente humilhante.
Janet reteve a respirao, depois perguntou, como uma criana assustada e insegura:
- Ento. o que posso fazer?
- Eu sugiro que voc fique comigo como minha hspede respondeu o duque. - Amanh falaremos sobre a sua situao e eu tenho certeza de que encontrarei a soluo para 
seus problemas.
- Isto  impossvel.
- Amanh falaremos sobre isso - disse ele com firmeza. Nada, e eu quero dizer nada mesmo,  impossvel!
- Mas como posso ficar com voc? Sorriu enquanto respondia:
-  bastante fcil. Deixe comigo todas as explicaes. Ver como sou imaginativo quando preciso ser.
-  muito gentil. Sei que no deveria t-lo envolvido nisso
- Mas estou envolvido, Janet - retorquiu o duque. Agora que estamos aqui, tudo que voc deve fazer  me obedecer.
Quando a carruagem parou em frente  longa escadaria em pedra que levava  porta da frente, ele acrescentou:
- D-me sua palavra de honra que ainda estar aqui pela manh.
Janet hesitou, durante algum tempo, at que os dedos do duque se apertaram sobre os seus e ela falou com um pequeno soluo na voz:
- Prometo.
Pela maneira como ela falou, soube que manteria sua palavra, e assim que a porta da carruagem foi aberta pelo criado o duque saiu e virou-se para ajud-la.
Teve a sensao de que o cocheiro e o criado ficaram olhando-a com espanto.
Subiram os degraus cobertos por um tapete vermelho, at o
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vestbulo, onde estavam  sua espera o mordomo e vrios criados, alm do seu secretrio, Mr. McMullen.
- Boa-noite, Vossa Alteza - cumprimentou Mr. McMullen respeitosamente, mas ao duque no escapou a leve expresso de surpresa que apareceu em seus olhos, vendo seu 
dono acompanhado por uma jovem mulher.
- Boa-noite, McMullen - respondeu o duque. - Trouxe comigo uma hspede inesperada.
Dizendo isso, lembrou-se de que seria um erro chamar Janet pelo seu verdadeiro nome.
Sua criadagem, e tambm McMullen, tinha certeza disso, deviam saber que ele estivera com lady Brandon, e era importante que eles no a relacionassem com Janet.
Por isso, deu a Janet o primeiro nome que lhe veio  cabea ao apresent-la:
- Miss Scott viajou comigo desde Londres e permanecer aqui pelo resto da noite. Voc dever providenciar que uma das criadas mais antigas durma no quarto de vestir 
contguo a seu dormitrio, e amanh, a no ser que ela nos deixe, lhe conseguirei uma dama de companhia mais adequada.
- Eu entendo, Vossa Alteza. Posso conduzir miss Scott at seu quarto?
- Obrigado - respondeu o duque. - Estou certo de que ela est to ansiosa de ir para a cama quanto eu prprio.
- Quer seguir-me, Miss Scott? - perguntou Mr. McMullen enquanto se dirigia para a escadaria.
- Boa-noite, Janet - falou o duque com desenvoltura. Durma bem e no se preocupe em levantar cedo pela manh.
Dizendo isso, olhou Janet no claro pela primeira vez e viu que ela era, de certo modo, muito diferente do que esperava.
Na escurido da carruagem ela parecia to pequena e jovem, que ele esperava que tivesse o rosto infantil de uma criana mesmo lhe tendo dito estar com dezoito anos.
Agora via que os olhos enormes em seu rosto com forma de corao eram os de uma jovem mulher e tinha um corpo muito esguio, quase etreo, com curvas suaves.
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Havia tambm nela, pensou, algo muito diferente daquilo que ele vira at o momento.
A comear pelos olhos, que eram de um azul muito escuro, e pareciam ainda mais escuros porque em seu terror as pupilas estavam dilatadas de forma a quase escurecer 
sua cor.
Seus cabelos, como havia observado na carruagem, eram claros, mas no dourados como seria de se esperar para os olhos azuis, mas,  luz das velas, eram quase prateados.
Por estar assustada, Janet lembrava-lhe uma cora presa no parque, difcil de amansar, e que fugia freneticamente ao primeiro sinal da presena de um estranho.
Quando olhou para ele com seus grandes olhos parecia estar suplicando para no deix-la sozinha.
O duque sorriu trnquilizando-a, e ela virou-se para seguir Mr. McMullen. Mas ele sabia que todos os nervos de seu corpo estavam retesados enquanto subia a escadaria.
O duque no ficou observando-a mais de um segundo, atravessou o vestbulo e entrou no aposento onde costumava ficar quando estava sozinho.
Como esperava, havia uma grande quantidade de papis e correspondncia esperando por ele sobre a escrivaninha.
Caminhou at um aparador sobre o qual sabia que encontraria  sua espera uma garrafa aberta de champanhe, alm de um prato de sanduches de pat para o caso de ele 
estar com fome aps sua jornada.
Estava certo tambm, embora no precisasse disso, que seu subcozinheiro, quando no o chefe em pessoa, estava esperando na cozinha se ele quisesse comer algo mais 
substancioso.
Sentiu, todavia, que a nica coisa de que necessitava naquele momento era um drinque, e ficou indeciso pensando se um forte conhaque no seria mais apropriado para 
suas sensaes.
Resolveu-se, porm, pelo champanhe e depois de encher meio copo bebeu-o sem nem sentir-lhe o sabor.
Sabendo que Janet estava sendo bem cuidada, ele subiu para seu prprio quarto.
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Seu valete esperava-o e como era antigo na casa sabia que a essa altura da noite ele no desejaria conversar.
Por isso, atendeu-o silenciosamente e foi somente quando o deixou, j na cama, que disse:
- Boa-noite, Vossa Alteza.  bom t-lo de volta em casa. Era exatamente, pensou o duque sorrindo, a espcie de coisa
que Bates diria.
Ento, recostado contra os travesseiros na imensa cama de quatro colunas, na qual haviam nascido e morrido vrias geraes de seus ancestrais, a lembrana de Olive 
Brandon o fustigou e ele sentiu-se submerso por toda a fora de um tufo.
Podia imaginar com toda a clareza que, se ela conseguisse seu intento e eles voltassem para o castelo como marido e mulher, ela estaria dormindo no quarto da duquesa 
e reinando no castelo e em todas as outras propriedades dele.
Repetiu para si mesmo que se fosse forado a casar-se com Olive teria de deixar a Inglaterra para no voltar nunca mais. Todo seu ser revoltava-se contra a ideia 
de deixar a casa que amava, que rescendia  histria de todos os Wynchester ao longo dos sculos.
Os pendes por eles conquistados em batalhas estavam pendurados no grande vestbulo e desde criana habituara-se a procur-los logo que voltava para casa durante 
os feriados.
Os quadros dos duques e condes que haviam reinado antes dele pendiam das paredes do grande vestbulo, no primeiro andar, numa galeria que ocupava toda uma ala da 
manso.
Os retratos das duquesas pendiam ao lado de muitos deles.
Eles possuam rostos lindos e nobres, s vezes sem atrativos, mas nenhum deles, pensava o duque, tinha a astcia e o maquiavelismo de Olive Brandon.
- No casarei com ela! No quero! - disse alto na escurido, e foi como ouvir sua risada zombeteira e ver seu jeito disfarado e artificial que um dia julgara atraente.
Compreendia agora que aquela risada deveria t-lo advertido de que tudo nela era falso.
Inesperadamente, porque pensava que no conseguiria dormir,
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 "caiu no sono enquanto odiava Olive Brandon com um dio quase fantico.
Embora fosse quase quatro horas da manh quando foi deitar, Bates, como de costume, veio cham-lo s oito em ponto, e enquanto tomava banho e se vestia o duque nem 
ao menos estava cansado, mas preocupado com o problema que o perturbara antes de ir para a cama.
Tomou seu desejum sozinho e quando estava terminando seu caf Mr. McMullen entrou na sala.
- Meus cavalos esto esperando, McMullen - disse o duque -, portanto no tente me atrasar.
- No tive a inteno de faz-lo, Vossa Alteza - respondeu Mr. McMullen. - Vim somente saber se Vossa Alteza teria alguma mensagem; O duque espiou o relgio e respondeu:
- Estarei de volta perto das onze e meia. Diga a miss Scott que a verei no meu escritrio a qualquer momento antes do almoo, se lhe aprouver encontrar-me l.
- Transmitirei a mensagem, Vossa Alteza.
O duque saiu da sala de almoo e, l fora, encontrou esperando por ele, como pensava, um dos novos cavalos que estava treinando pessoalmente.
Durante as trs horas seguintes, uma srie de batalhas para dominar um animal determinado a desafi-lo fez-lhe esquecer todo o resto.
O duque, durante a manh, cavalgou trs cavalos, cada um
 proporcionando-lhe mais prazer que o outro.
Ao mesmo tempo, era-lhe impossvel no estar cnscio da escurido ameaadora que estava presente no fundo de sua mente.
Como havia prometido a Mr. McMullen, voltou para casa um pouco depois de onze e meia e foi direto para o seu escritrio.
Dedicou sua ateno aos papis que o esperavam sobre sua escrivaninha. Mas foi um alvio quando, quinze minutos mais tarde, a porta se abriu e Janet foi introduzida 
no recinto.
Pensara que a impresso que havia tido dela na noite anterior
provavelmente devia estar errada, devido ao seu dramtico encontro na escurido da carruagem, mas agora que a via  luz do dia percebia que era realmente diferente 
de qualquer mulher j vista por ele.
Ainda parecia assustada e seus olhos azuis estavam escuros e tempestuosos. Imaginou ver seus lbios tremerem um pouco enquanto se dobrava para fazer-lhe uma reverncia 
e se dirigir rapidamente em direo  escrivaninha onde ele estava.
Levantou-se assim que ela se aproximou, e viu que estava usando o mesmo vestido da noite anterior, que lhe parecera escuro  luz do luar, mas na realidade era de 
uma tonalidade muito tnue de azul, como a de seus olhos.
Era o vestido de uma mocinha, e muito simples.
Como havia percebido na noite anterior, estava diante de uma mulher, mesmo que, como havia observado antes, fosse extremamente esguia.
Imaginando-a nervosa, o duque sorriu antes de dizer numa voz profunda:
- Bom-dia, Janet. Espero que tenha tido um bom sono.
- Quando acordei no conseguia. lembrar onde estava respondeu ela. - Ento me dei conta de que no havia lhe agradecido por ser to amvel comigo.
As palavras pareciam chegar um pouco desconexas de seus lbios e o duque se aproximou dela, dizendo:
- Vamos nos sentar e conversar. Estou certo de que ser mais fcil do que foi na noite passada.
Janet seguiu-o at um grande sof de veludo em frente a uma lareira que, por ser vero, estava coberta por um enorme arranjo de flores.
Ela sentou na beirada do sof, apertando as mos juntas no colo e levantando os olhos para o duque.
Havia neles uma expresso de splica, e ela lhe fazia silenciosamente a mesma pergunta da noite anterior e para a qual ele no tinha resposta.
Apoiando-se no consolo da lareira ficou observando-a, muito elegante em sua cala e botas reluzentes de montaria.
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Seu plasto estava meticulosamente amarrado e vestia uma jaqueta de montar em tecido grosso listrado, com um colete amarelo cujos botes tinham gravado seu sinete.
Teria sido difcil para qualquer mulher no reparar em sua aparncia agradvel e ao mesmo tempo na figura extremamente elegante.
Os olhos de Janet, porm, estavam fixos no rosto dele e, aps um momento, pensando que no havia motivo para no ir logo ao ponto crucial de suas dificuldades, o 
duque disse:
- Sei que o que voc est me perguntando  "o que farei?", e  justamente isso que teremos de decidir. 
- Voc no gostaria que eu simplesmente fosse embora? - inquiriu Janet. - Foi esperto quando me apresentou com um nome falso, pois assim ningum aqui poder me relacionar 
com papai. ou com minha madrasta.
O modo com que pronunciou a ltima palavra demonstrou ao duque o terror que ela tinha de Olive Brandon, e lhe pareceu irnico que ele estivesse quase na mesma situao 
em que ela se encontrava. 
- Por certo - disse depois de um momento -, voc tem algum parente, talvez no lado materno da famlia, com quem possa viver.
- J havia pensado nisso - disse Janet -, mas, antes que eu fosse para o colgio, minha madrasta proibiu-me de escrever ou ver qualquer um de meus parentes. Ela 
no quer que eles se preocupem comigo, especialmente depois que voltei para casa.
- Afastou o olhar enquanto falava e continuou: - Talvez voc estranhe o fato de eu ter voltado para casa sabendo nO ser. bem-vinda. Mas as freiras no queriam que 
eu ficasse por mais tempo.
- Por que no? - perguntou o duque.
- Eu era a menina mais velha do colgio, e quando no ltimo perodo ganhei quase todos os prmios soube que elas consideravam isto uma injustia para com as outras 
alunas. 
O duque sorriu: - Isto quer dizer que voc  inteligente, Janet.
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- Se fosse inteligente - respondeu Janet com voz diferente, na qual havia uma nota de veemncia -, no o teria oprimido com meus problemas. Teria morrido como pretendia 
fazer na Serpentine.
Percebia enquanto falava que ela no estava representando, mas simplesmente se recriminando por ter fugido.
Achou impensvel que uma moa jovem, na posio social de Janet, devesse passar por experincias to desagradveis e ser tratada como ela havia sido por sua madrasta.
Sabia que muitas vezes as mocinhas eram casadas to logo deixassem as salas de aula e no podiam opinar sobre o homem de quem seriam esposas.
Para todas as mes da alta sociedade era ponto de orgulho que sua filha fizesse um bom casamento, e no importava o que esta pensasse acerca do homem escolhido.
Refletindo sobre o caso, o duque podia compreender que, em seu desejo de ver-se livre da enteada, pois no toleraria nenhuma competio em sua prpria casa, Olive 
estava pronta a casar Janet com o primeiro homem que dela se aproximasse.
O fato dele no frequentar o mesmo crculo social que Olive frequentava era obviamente uma vantagem para ela.
Visto o duque permanecer em silncio enquanto fazia estas reflexes, Janet, que o estava observando, falou:
- No deveria permitir que a minha situao o preocupasse dessa forma. Sabendo que estorvo estou sendo, posso dar uma sugesto?
O duque sentou-se numa cadeira de braos em frente a ela e, cruzando as pernas, disse:
- Naturalmente. Estamos aqui para falarmos sobre isso, e  isso o que devemos fazer. Qual  a sua ideia?
- Estive pensando - argumentou Janet -, que, se no permitir que eu me mate, se isto torna as coisas mais fceis para todos, ento talvez eu possa ir para algum 
lugar onde ningum me conhea e encontrar algum trabalho para fazer.
- Trabalho? - perguntou o duque. - Que espcie de trabalho?
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Ela fez um pequeno gesto de desalento com as mos antes de dizer:
- Recebi uma boa educao, estou certa de poder dar aulas para crianas, ou, visto as freiras terem sido muito exigentes com nossas costuras, penso que poderia costurar 
uma srie de peas para vender.
Falara com coragem, porm o duque ainda percebia o terror por trs de cada palavra que ela pronunciava.
Tambm no podia deixar de observar o fato de que seus dedos se entrelaavam e se soltavam enquanto falava e que tremiam como na noite anterior quando tinha posto 
sua mo sobre as dela.
Acomodou-se um pouco mais confortvel na cadeira antes de
falar:
- Agora oua, Janet. Sabe to bem quanto eu que  por demais jovem e muito inexperiente para viver sozinha. Para pr em execuo qualquer uma dessas ideias, teria 
de viver com algum que cuide de voc e a proteja, se no de outros perigos, de morrer de inanio.
Janet olhou para baixo e ele observou que seus clios eram escuros, contrastando com a brancura da pele. Ento ela falou de novo:
- Devo parecer-lhe muito ousada, mas, como eu no tenho nada comigo, somente a roupa que visto e nenhum dinheiro, estou constrangida em ter de pedir-lhe emprestado. 
Naturalmente devolverei assim que estiver trabalhando.
Reparou que seus sentimentos eram exatamente como ele esperara que fossem, e lembrou de todas as mulheres que haviam lhe pedido sem nenhum escrpulo jias e peles, 
ou at mesmo casas.
Nenhuma delas havia sugerido nem por um instante que o dinheiro que ele havia gasto com elas poderia ser devolvido.
- Janet, no estou preocupado - disse ele em voz alta no custo que isso comportaria. Isto  irrelevante, mas sim em qual seria a melhor soluo para o seu caso.
Ela no respondeu e mais uma vez ele intuiu que estava pensando 
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no lago em frente ao castelo, que ela vira das Janets de seu quarto.
Era um lago realmente grande e lindo, alimentado por um grande crrego que aflua nele numa das extremidades e eflua em forma de cascata na outra, terminando com 
um redemoinho perigoso.
Perturbado por estes pensamentos levantou-se da cadeira e disse:
- Para sermos sensatos h somente duas coisas a fazer: a primeira seria lev-la de volta para seu pai e explicar-lhe, e eu seria bem eloquente neste ponto, que esta 
espcie de situao no deve ocorrer novamente e que voc no tem nenhuma inteno de casar-se com um homem escolhido por sua madrasta.
Suas palavras foram categricas, mas, antes que terminasse a ltima sentena, Janet ps-se em p com um grito agudo.
- Teria a coragem de levar-me de volta? Porque, se fizer isso, quaisquer que sejam as promessas de papai, minha madrasta conseguir seu intento como sempre consegue!
Enquanto falava, ficou encarando-o, desafiadora, mas depois cobriu os olhos com as mos e chorou.
- Janet, lamento - disse o duque -, no deveria ter exposto a ideia com tanta aspereza.
- Eu... no posso voltar. Voc compreende. Ela nunca me perdoar por ter contado o que aconteceu.
Janet ainda cobria os olhos com as mos quando ele falou:
- Esquea o que eu disse. Fui um tolo. Por favor, deixe de chorar. No suporto lgrimas.
Janet tateou  procura de um leno que no encontrou, e o duque lhe ofereceu o dele, que havia tirado do bolso de sua jaqueta de montar.
Ela esfregou os olhos distraidamente como teria feito uma criana, depois assoou o fino nariz e sentou de novo na cadeira, com o leno no colo.
Levantou o olhar para ele, com os clios ainda midos e o brilho das lgrimas ainda em suas faces. O duque pensou que
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ningum parecia mais pattico e mais necessitado de cuidados e de proteo.
- A outra sugesto que eu tinha em mente - declarou aps uma breve pausa - era a de encontrar algum com quem voc pudesse viver e que, se assim o desejasse, nunca 
viesse a conhecer sua verdadeira identidade. Mas acha que poder realmente suportar uma vida como o fantasma de "Miss Ningum", nascida em nenhum lugar?
- Fez uma pausa antes de continuar:
- Posso prever complicaes infindveis, infindveis perguntas que no podem ser respondidas, e a situao seria intolervel para uma mulher mais velha, imagine 
para algum com sua idade.
- Qualquer coisa seria melhor que ter de voltar - disse Janet, incerta. - Mas eu tenho muito medo de que minha madrasta possa tentar me encontrar, s para certificar-se 
de que eu no esteja fazendo algo que ela poderia desaprovar. Uma vez que ela toma uma resoluo sempre consegue o que quer.
O que impressionava o duque era o fato de ele temer isso no que dizia respeito a ele mesmo.
Sem realmente saber o que estava fazendo, caminhou at a Janet e ficou contemplando os canteiros de flores e os arbustos de cores brilhantes contra o verde do relvado 
que descia at o lago.
Alm do lago, ele podia ver luzindo como ouro  luz do sol os grandes carvalhos, que l estavam h sculos e em cuja sombra descansava o veado pintado.
O lar de seus ancestrais, pensou ele, era o que Olive pretendia tirar dele. Isto era o que ela o obrigaria a abandonar, a no ser que ele conseguisse libertar-se 
da armadilha em que o havia feito cair.
Sentiu como se todo seu ser gritasse alto: "Me salve! Me salve!", e era um grito de socorro para o qual devia encontrar uma resposta e rpida.
Pensando nele mesmo, quase se esquecera de Janet, at que sua fina voz trmula declarou:
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- Como lamento, lamento muito, deix-lo assim to preocupado.
O duque virou-se. Viu o pequeno rosto assustado, com as faces magras e plidas e os longos dedos que tremiam segurando o seu leno.
Ele ficou a observ-la, e ento, quase como se um crculo de luz ofuscante a envolvesse, soube que ela era a sua salvao.
Ela era a resposta a seu grito de socorro.
Lentamente, voltou para onde estivera antes, em frente  lareira.
A expresso de seu rosto era muito grave, mas pela primeira vez naquele dia havia uma luz de esperana em seus olhos, que no existia antes.
- Agora, escute Janet - falou. - Tenho uma ideia.
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CAPTULO iii
Janet levantou os olhos para fit-lo e o duque procurou as palavras certas para expor o que pensara:
- Por coincidncia, eu estou quase na mesma situao que voc. Est sendo forada a casar-se com algum que no tolera, e eu estou sendo pressionado a casar com 
uma mulher que sei que no ser uma boa esposa para mim.
Janet arregalou os olhos, admirada.
- Mas, com certeza, para voc  fcil dizer no. O duque sorriu.
- No  to fcil como parece. De fato, mesmo no querendo entrar em detalhes, ser muito, muito difcil para mim livrar-me de uma situao verdadeiramente infeliz, 
a no ser que voc me ajude.
A surpresa de Janet era to grande que seus olhos pareciam tornar-se maiores que nunca em seu rosto plido:
- Ser possvel que eu possa ajudar voc?
- Ser de grande ajuda se concordar com aquilo que vou sugerir - respondeu o duque - e sei que ajudar tambm voc.
- Sabe que eu faria qualquer coisa. - murmurou Janet. Sua voz morreu como se percebesse que seria tolice acrescentar algo antes de ouvir o que o duque diria.
Ele prendeu a respirao e falou:
- O que estou para sugerir, Janet,  que anunciemos que pretendemos nos casar. Em outras palavras, que nos tornemos noivos.
Pela expresso do rosto de Janet, viu que ela no acreditava ter ouvido direito suas palavras, ento prosseguiu depressa:
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Naturalmente ser somente um noivado simulado, que durar pelo tempo que ns dois quisermos; em realidade, at que ambos estejamos fora de perigo. Chegado o momento, 
poderemos dizer que afinal das contas no ramos compatveis como havamos pensado e estaremos livres.
Houve um breve silncio antes de Janet dizer:
- Compreendo o que voc est dizendo, ou ao menos penso compreender, mas sei muito bem que minha madrasta ficar louca de raiva com a ideia de voc querer casar 
comigo.
Pelo modo como ela falou, o duque intuiu que havia feito um conceito sagaz daquilo que eram suas relaes com a madrasta dela.
Teria sido impossvel que ela, morando na mesma casa, no percebesse que, quando seu pai estava fora, ele e Olive passavam juntos quase todos os dias e que em vrias 
ocasies jantavam os dois sozinhos.
No queria demorar-se sobre este pensamento, mas no fundo de sua mente surgiu a ideia desconfortvel de que, visto a criadagem estar sempre fofocando, teria sido 
difcil que Janet no tivesse ouvido.
Para superar aquele momento embaraoso, ele disse com certo orgulho:
- Sua madrasta pode pensar o que quiser, tenho certeza de que seu pai me aceitar com alegria como seu genro. Muitas vezes nos encontramos durante as corridas e 
pertencemos ambos ao mesmo clube.
No acrescentou, apesar de Ser verdade, que qualquer pai em toda a Inglaterra o aceitaria com seu ttulo, seu dinheiro e suas Posses como genro, e que era exatamente 
improvvel que lorde Brandon fosse uma exceo.
- Acredito que o que voc est fazendo  verdadeiro - observou Janet com voz hesitante -, mas minha madrasta ficar com muita, muita raiva.
- Ela pode ficar com raiva - argumentou o duque -, mas Penso que ns podemos arranjar nossa vida de forma que voc no tenha nada, ou muito pouco, a tratar com ela. 
Hoje  tarde
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levarei voc a passear, sei que vai gostar, e faremos uma visita a minha av na Dover House.
Havia perplexidade no olhar de Janet, e ele continuou:
- Ela  muito velha e, apesar de s vezes no passar bem, gosta de receber visita de gente moa e sei que adorar no somente ver voc como at a convidar a permanecer 
com ela.
Janet o fitou e, sem querer, perguntou:
- Por favor! Por que devo deix-lo?
- Somente at que seja anunciado o nosso noivado e que eu possa encontrar algum, entre os meus parentes mais novos, que lhe sirva de dama de companhia aqui no castelo.
Janet desviou o olhar.
- Mais uma vez estou percebendo que sou um terrvel transtorno para voc - declarou melancolicamente.
- Pelo contrrio, voc  o meu salva-vidas num mar bravio, num momento em que estou precisando muito dele.
- Realmente. isto  verdade?
- Assegurou-lhe que  e, agora que j traamos nosso imediato futuro, podemos esquecer por enquanto nossas dificuldades.
Esperava que Janet lhe sorrisse ansiosa para colaborar, como teria feito qualquer outra mulher, mas, em lugar disso, ela falou:
- Penso que seu plano  realmente engenhoso, mas estou com muito medo de que no d certo.
- Para mim ou para voc? - perguntou o duque.
Como ela no respondesse, ele disse num tom de voz diferente:
- Agora me acompanhe, sem mais tristezas. Temos um pouco de tempo antes do almoo e voc deve dizer-me se prefere ver meus quadros ou meus cavalos.
Afinal, agora, nos olhos de Janet, havia uma luz que ele no havia visto ainda.
- Quero ver os dois - anunciou ela -, mas, se pensa que  muita coisa, talvez devesse ver primeiro os quadros, no caso de no poder entrar de novo no castelo.
- Posso garantir que voc entrar no castelo muitas vezes, e
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j disse que assim que eu conseguir a dama de companhia adequada para voc, poder viver aqui.
Percebeu que ela estava excitada com a ideia e, estendendo as mos como para uma criana pequena, disse:
- Venha, vamos  galeria dos quadros e poder dizer-me o que pensa da minha coleo, que me asseguraram ser uma das mais perfeitas da Inglaterra.
- Claro que  - replicou Janet.
- Por que claro?
- Porque tudo que lhe diz respeito  to perfeito, to exatamente como deve ser, que me faz crer que voc no seja real.
O duque riu com espontaneidade.
- Este  o elogio mais gentil que eu j recebi - disse -, e espero, Janet, que continue pensando a mesma coisa depois de me conhecer melhor.
Levou-a  galeria de quadros que ocupava todo o compartimento de uma ala e, como esperava, ela ficou fascinada.
O que lhe causou surpresa foi o fato de ela conhecer tantas coisas a respeito das pinturas. Em certos casos, quando discutiam o artista, ela conhecia mais sobre 
sua vida que ele prprio.
Tinha tambm ideias originais acerca de cada obra-prima, que eram muito diferentes dos comentrios arrebatados e banais de outras mulheres para as quais mostrara 
sua coleo.
Havia percebido ento que, enquanto elas apreciavam um quadro e falavam dele com entusiasmo, na realidade elas estavam falando de si mesmas.
Cada palavra que proferiam e cada olhar que lhe lanavam eram deliberadas incitaes a admir-las como mulheres.
Enquanto percorriam a galeria, ele observava, e o fato o divertia, que Janet tinha olhos somente para os quadros e que ele era somente um guia bem informado que 
podia dizer-lhe o que queria saber.
Muito antes que eles acabassem de visitar a galeria, sem falar dos outros aposentos nos quais o duque havia exposto tambm seus quadros, foi anunciado o almoo.
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Sentaram juntos no grande salo de jantar, tendo numa das extremidades a galeria dos menestris e na outra a enorme lareira medieval em pedra que havia sido esculpida 
por um dos primeiros condes de Wynchester.
Janet mostrou vontade de conhecer a histria de cada coisa que via, e o duque teve de procurar em sua mente detalhes do que ouvira em criana e que ficaram esquecidas 
com o passar dos anos.
Para sua surpresa, o almoo, em geral bastante demorado, pareceu transcorrer muito mais rapidamente do que ele esperava, e descobriu que gostava de ter uma ouvinte 
to interessada que ouvia com ateno qualquer coisa que ele dissesse.
Depois do almoo, foi-lhe trazido seu faetonte, puxado por dois magnficos alazes. Gostou no somente de gui-los, mas tambm do comentrio apreciativo que Janet 
fez deles. Atravessaram os bosques e acompanharam o crrego que alimentava o lago.
O duque explicou as alteraes e as melhorias que ele estava fazendo na propriedade, e viu com surpresa o genuno interesse de Janet.
Estava acostumado com mulheres que ouviam o que dizia por ser um homem atraente.
Mas sabia muito bem que o assunto de que ele havia falado era de somenos importncia, at que no final a conversa voltava ao que era o nico interesse delas. E naturalmente 
era expresso por uma s palavra: amor.
Descobria no momento que Janet, a no ser que fosse uma atriz consumada, realmente queria aprender sobre a rotao das culturas e estava emocionada com as guas 
para reproduo que eles inspecionaram num dos campos, muitas das quais com seus potros recm-nascidos ao lado.
Somente quando o duque dirigia seus cavalos em direo a uma casa que ela ainda no tinha visto, sentiu seu corpo tensionar-se e soube que mais uma vez ela estava 
com medo.
- Minha av tem mais de oitenta anos - explicou ele. - A maioria das pessoas acha-a formidvel, mas eu quero que voc
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tente no ter medo dela e fique tranquila, at que eu volte de Londres amanh.
- Deve ir... a Londres? - perguntou Janet.
- Para ver seu pai - respondeu o duque - e, naturalmente, pedir-lhe permisso para cortejar voc. No acredito que me recuse.
Havia um pequeno aceno de sarcasmo naquilo que ele dizia, porque havia deduzido muito claramente do que Olive lhe contara que lorde Brandon no era to rico como 
ela desejaria.
Consequentemente, tinha quase certeza de que no passaria despercebida a vantagem de ter um genro superlativamente rico.
Depois da pequena pausa que se seguiu a suas palavras, Janet comentou com voz muito baixa:
- E se papai no deixar que fiquemos. noivos?
Pelo modo como ela falou, o duque percebeu que ela estava pensando mesmo era em sua madrasta.
Contudo, ele tinha certeza de que seu plano era a resposta perfeita  inteno dela de obrigar o marido a pedir o divrcio. Se ele conseguisse contar sua histria 
antes dela, teria uma desculpa perfeita para as frequentes visitas que fizera  casa.
Depois que ele declarasse seu desejo de casar com Janet, seria impossvel algum acreditar na histria de Olive.
"Tenho sido bastante astuto", refletia o duque, e sorria enquanto dirigia seus cavalos na pequena subida que conduzia a Dover House.
Era uma edificao atraente, construda sob o reinado da rainha Anne. Quando o cavalario segurou as rdeas e o duque ajudou Janet a descer, pelas suas mos geladas 
e trmulas percebeu que estava apavorada.
Um mordomo velho e de cabelos completamente brancos os acompanhou pelo vestbulo at uma sala de visitas que dava para um roseiral que tinha ao centro um relgio 
de sol.
Sentada perto da Janet, a velha senhora soltou uma pequena exclamao de alegria quando o duque foi anunciado.
- Hugo, meu querido rapaz! - exclamou ela, radiante. Que surpresa e como estou feliz em te ver!
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- Eu tambm vov - falou o duque, beijando-a nas faces. Na realidade, eu vim para pedir-lhe que me ajude a cuidar de Janet Scott, porque deverei partir para Londres 
amanh pela manh.
- Janet Scott? - perguntou a velha duquesa. - Penso que voc nunca me falou nela.
Nos olhos dela apareceu um brilho inquiridor, enquanto observava como Janet era jovem.
- Fale-me de voc, querido - pediu ela. -  to raro voc trazer gente jovem para o castelo.
- Acho que vai ficar surpresa, vov - interrompeu o duque -, se me permitir contar-lhe um segredo. Janet e eu pretendemos ficar noivos, mas primeiro deverei me encontrar 
com o pai dela, lorde Brandon, para
 pedir-lhe seu consentimento.
- Lorde Brandon? - repetiu a duquesa-me.
Pelo olhar intrigado da velha senhora, o duque compreendeu que o nome Brandon significava algo para ela e que talvez tivesse ouvido falar de seu affaire com Olive.
Apesar de viver tranquilamente no campo, a duquesa tinha muitos amigos na alta sociedade que a mantinham informada sobre todos os boatos mais recentes, especialmente 
os que lhe diziam respeito.
- Voc deve saber, vov, que o nome verdadeiro de Janet  Brandon - continuou o duque -, mas, por razes que explicarei depois, ela pernoitou no castelo como Janet 
Scott e, at que eu volte de Londres com o consentimento de seu pai, quero que ela seja conhecida aqui, na sua casa, como miss Scott.
- Se h uma coisa que eu adoro - afirmou a duquesa-me
-  um bom mistrio, mas nesse caso eu prefiro que voc me explique.
- Voc ter de esperar - respondeu o duque. - Depois, vov, ser a primeira a saber exatamente o que est acontecendo.
Ao falar isso, lembrou-se de que deveria ter avisado Janet. antes de ali chegarem, que ela teria de responder a muitas perguntas.
S ento, para facilitar as coisas para ela, explicou melhor o que acabara de falar.
A verdade, vov,  que Janet tem sido muito infeliz com sua madrasta, ento eu a fiz sumir de Londres sem que ningum soubesse o que eu estava fazendo. No tivemos 
tempo para que ela preparasse sua mala, assim trouxe-a para ficar com voc mesmo sem ter nada para vestir, e posso somente pedir que tenha a gentileza de acolh-la 
aqui, at que eu volte com o consentimento do pai dela.
- Cus! Isto parece o comeo de um drama - comentou a duquesa. - Naturalmente, voc pode confiar em mim para guardar o seu segredo, ao menos por enquanto. No momento, 
no h ningum aqui com quem eu possa falar, com exceo de sua prima Alice, que  surda como um poste e nunca escuta nada do que eu digo.
O duque riu. Estava acostumado com as crticas que sua av fazia a seus parentes, declarando que todos eles, com exceo dele prprio, eram completamente idiotas.
Mas Janet ainda parecia preocupada.
- Espero que a senhora no fique muito aborrecida - disse em voz baixa - por ficar aqui sem ser convidada.
- Claro que no - respondeu a velha duquesa. - Estou encantada, querida menina, no s por ter voc aqui comigo como tambm por participar deste mistrio emocionante.
Seus olhos cintilavam quando fitou o neto e declarou:
-  melhor voc ter cuidado, Hugo, se no quiser ser levado s autoridades por seduzir uma menor.
- Se fosse - respondeu alegremente -, confiaria plenamente em voc, vov, para me libertar e me salvar da cadeia.
O duque tomou o ch com sua av e Janet e, quando se levantou para partir, viu uma expresso desesperada nos olhos "ela, que o obrigou a dizer:
- Vov, antes que me v, voc me permite falar em particular com Janet?
- Eu j esperava por isso - a av falou com uma risadinha. 
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 - Naturalmente vai querer ficar sozinho com ela. Leve a para a sala de estar. L ningum os incomodar.
- Obrigado - respondeu o duque.
Beijou a av na face e, acompanhado por Janet, atravessou o vestbulo at a sala de estar, que era um aposento pequeno e gostoso com vista para outro lado do jardim.
Assim que entraram e fecharam a porta, Janet perguntou,
- Quando voc estar de volta?
- To logo me seja possvel - respondeu o duque. - Pretendo ver seu pai assim que ele descer para o desjejum.
- s oito e meia ento - disse Janet. - Ele nunca se atrasa e estar s.
Olive nunca acordava antes. Ele sabia pelas palavras da criadagem que ela s se levantava quando "o mundo estava bem arejado".
O duque ento explicou:
-  como eu imaginava. Poderei falar-lhe sem nenhuma interferncia.
Viu que os olhos de Janet estavam ainda temerosos, por isso continuou:
- No momento em que seu pai nos der seu consentimento, tomarei as providncias para que seja publicado no Londor. Gazette e no Morning Post. Estando noivos oficialmente, 
nada mais dever perturbar-lhe, e ns dois estaremos livres de nossos problemas.
Esperava que Janet lhe sorrisse em resposta a suas palavra; animadoras, mas ela continuou pensativa.
- Por que est preocupada?
- No posso evitar de pensar - respondeu - que isto no ser to fcil como voc imagina.
O duque pressentia o mesmo, porque sabia que Olive iria ficar, alm de furiosa, mortalmente frustrada.
Mas no haveria nada que ela pudesse fazer e, mesmo que em sua fria deixasse escapar que eles haviam sido amantes nem por um momento achava que lorde Brandon iria 
acreditar 
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nela. Tampouco achava que ela fosse ousada o suficiente para tentar convenc-lo.
Alm disso, uma vez que o noivado tivesse sido anunciado, qualquer coisa que ela dissesse faria todos terem a certeza de que ela falava por cime e ningum a levaria 
a srio.
- Janet, deixe tudo comigo - reforou ele. - Tudo o que voc tem de fazer  esquecer o quanto foi infeliz, e eu prometo que, no futuro, as coisas sero bem diferentes.
Suspeitou que ela estava refletindo sobre o que aconteceria quando seu noivado terminasse. Aps pensar um pouco, declarou:
- No nos apressaremos para tomar qualquer deciso. Precisamos anunciar a todos que nos amamos e que estamos esperando ansiosamente para nos casar. Dentro de seis 
meses, talvez mais cedo se voc quiser, ser mais fcil planejar aquilo que deveremos dizer e j teremos encontrado algum lugar onde voc possa viver sem interferncia 
de sua madrasta.
- Voc  realmente gentil - disse Janet em voz baixa. Sei que est se preocupando por mim e ningum tem feito isso. desde que mame morreu.
Havia lgrimas em seus olhos quando continuou:
- Rezarei bastante enquanto voc estiver fora para que eu possa ajud-lo da mesma forma que est me ajudando.
- Isto  exatamente o que eu quero que faa - afirmou o duque. - Tenho certeza de que suas oraes sero ouvidas. No se preocupe, Janet, tudo dar certo.
Estendeu as mos para pegar as dela como j tinha feito, mas, antes que pudesse impedir, Janet beijou as mos que ele Atendia.
Enquanto o duque pensava se deveria fazer o mesmo, ela enxugou os olhos e falou com uma voz diferente:
Por favor, se for possvel, traga-me alguma das minhas rUpas. Ficaria muito constrangida. tendo de pedir tudo emPrestado de sua av.
O duque abriu a porta da sala de estar.
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- Trarei tudo que puder - prometeu ele. - Espero estar de volta amanh a tempo para o almoo.
Os criados estavam  sua espera no vestbulo, e assim que saiu pela porta da frente subiu em seu faetonte.
Pegando nas rdeas, olhou para Janet, no topo da escada, e pareceu-lhe ver ainda lgrimas nos olhos dela.
Enquanto se afastava, o duque refletia que ela, embora fosse muito jovem, era bastante responsvel.
Durante seu noivado, ele faria de tudo para que ela tivesse as reunies e as diverses a que tinha direito como debutante e das quais Olive a tinha lamentavelmente 
excludo.
Ao lembrar-se de Olive, seu rosto se fechou. Embora seu plano parecesse seguro, no podia acreditar que ela aceitasse tal situao sem tentar criar confuso.
Mais uma vez ficava furioso ao lhe voltar  mente a determinao que sentiu na voz dela quando dissera que pretendia casar-se com ele e de como havia tramado tudo 
com tanta preciso e astcia.
"Isto me ensinou uma lio", ele refletiu. "No se deve acreditar numa mulher e tampouco deixar-se envolver por pessoas sabidas e pouco confiveis."
De volta ao castelo, jantou sozinho e foi logo para a cama Mas no dormiu, passando e repassando em sua mente o que deveria dizer a lorde Brandon.
Acordou ao alvorecer e por volta das seis e meia j estava a caminho de Londres.
Seus cavalos cobriram a distncia rapidamente de forma que ele pde ir at sua casa para lavar-se e trocar os cavalos antes de dirigir-se para Brandon House, em 
Park Lane.
Ao v-lo chegar, o criado que atendeu  porta ficou surpreso mas ele foi entrando no vestbulo e dizendo:
- Seu patro est na sala de almoo?
- Est, Vossa Alteza.
- Ento, por favor, me anuncie.
O criado estava por demais confuso para fazer outra coisa 
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a no ser o que lhe era pedido. Abriu a porta da sala de almoo dizendo:
- Sua Alteza, o duque de Wynchester, milorde.
Lorde Brandon, que, sentado  mesa estava lendo o The Times, levantou o olhar, interrogativo. O duque adiantou-se enquanto falava:
- Bom-dia, milorde. Desculpe incomod-lo to cedo, mas vim do campo direto para v-lo e temia no encontr-lo.
- Naturalmente, meu caro amigo - lorde Brandon respondeu. - Ponha-se  vontade e diga-me a que veio.
O duque aproximou-se da mesa j preparada com uma srie de travessas de prata com os antepastos e assim que ele se acomodou, um criado precipitou-se a arrumar-lhe 
um lugar.
Enquanto lhe era preparada uma xcara de caf, ele perguntou:
- Como vo as pescarias?
- Realmente muito bem - respondeu satisfeito lorde Brandon. - Em duas semanas pescamos quarenta quilos. Dezenove quilos no meu anzol!
- Mas isto  muito bom - aplaudiu o duque. - Por falar nisso, quais so as suas perspectivas para caa, este ano?
Lorde Brandon adentrou-se numa longa exposio sobre a criao de galos silvestres, as condies da charneca e a esperana de uma quantidade excepcional de caa 
abatida no outono.
- Visto como voc gosta de caar - argumentou o duque -, me causa estranheza que no possua seu prprio ancoradouro l no norte.
- Est a uma coisa que eu gostaria muito - replicou lorde Brandon -, mas, infelizmente, no posso manter um ancoradouro e esta casa em Londres.
- Bem, ento espero que voc venha caar comigo em agosto -  convidou o duque. - Meu rio no  to bom quanto o rio
Tay, mas minhas charnecas so Certamente iguais, se no melhores do que aquelas de Kilkenny.
- Esse convite eu aceito com todo o prazer - lorde Brandon sorriu.
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- E eu espero que fique ainda mais contente - disse o duque - quando tiver explicado o motivo da minha visita. Vim pedir-lhe que abenoe o meu noivado com sua filha 
Janet.
Por um momento lorde Brandon ficou a olh-lo espantado. Ento exclamou:
- Janet! No fazia ideia de que voc a conhecia. Ela voltou somente agora do exterior onde estava no colgio.
- Eu a tenho visto frequentemente enquanto voc esteve fora - disse o duque. - Acabamos descobrindo que temos muitas coisas em comum e, visto que todo mundo me diz 
que j estou na hora de casar, vim aqui para
 pedir-lhe formalmente a mo de Janet em casamento.
Lorde Brandon tentou apagar a surpresa de seus olhos, e havia um sorriso em seus lbios que parecia iluminar-lhe o rosto quando disse:
- No esperava por isso, mas, naturalmente, meu jovem, eu estou contente, absolutamente contente que voc case com Janet.
O duque inadvertidamente soltou um suspiro de alvio e comeou a comer seu desjejum com gosto.
- Naturalmente - lorde Brandon comeou a explicar -, sempre quis que Janet fizesse um bom casamento, mas nunca sonhei, nem me passou pela cabea, que ela poderia 
casar com voc. Como disse, no a vi muito durante os ltimos anos, mas minha primeira mulher era uma criatura muito linda e Janet se parece com ela.
O duque terminava seu caf quando a porta da sala de jantar se abriu e, para sua surpresa, Olive entrou.
Se ele estava surpreso, mais ainda ficou lorde Brandon.
- Querida! - exclamou ele. - Voc levantou muito cedo.
- Fiquei sabendo que voc tinha uma visita - replicou Olive. - O que realmente  uma surpresa.
A maneira desconfiada de ela se explicar avisou o duque que Olive suspeitava de que algo estava acontecendo  sua revelia, e que estava determinada a descobrir o 
que era.
Sua experincia com mulheres tambm f-lo observar que
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ela se havia arrumado muito depressa, pois seus cabelos, em lugar de estarem arrumados como de costume, estavam presos atrs da nuca num coque.
Apesar disso, com seus olhos verdes cintilando sobre a pele de magnlia. ela parecia extremamente linda, embora perigosa como uma cobra.
Decidida a saber do que se tratava, ela dirigiu-se ao duque:
- O que traz aqui Vossa Alteza to cedo?
- Wynchester veio com boas novas, Olive - interveio lorde Brandon antes que o duque pudesse responder. - Sei que voc ficar to surpreendida quanto eu, mas ele 
veio pedir-me permisso para ficar noivo de Janet. Eu naturalmente concedi para anunciar seu noivado.
O duque observava ansiosamente para ver a reao de Olive a esta notcia.
Viu-a ficar tensa e conter a respirao. Durante um momento aterrador, pensou que ela fosse gritar a verdade, ou seja, que era
seu amante.
Ento seus olhos estreitaram-se e ele percebeu que Olive pensava em como poderia impedir este casamento.
- Sei que voc vai ficar satisfeita, minha querida - dizia lorde Brandon. - De fato, antes de eu viajar voc me dizia que deveramos pensar em faz-la casar. Eu 
cuidava que fosse muito cedo, mas, naturalmente, Wynchester me fez mudar de opinio.
Olive suspirou, e depois falou num tom baixo, mas to claramente que parecia que as palavras ressoavam no aposento:
- Mas que pena!  realmente muita pena que Vossa Alteza tenha chegado muito tarde!
- O que quer dizer muito tarde? - perguntou lorde Brandon.
- Querido, eu ia contar - Olive escolhia as palavras com cuidado -, mas ainda no tinha tido oportunidade, que nossa querida Janet e Harold Hodgson haviam-me falado, 
assim que voc partiu para a Esccia, que queriam casar-se e que naturalmente estavam muito enamorados.
- Hodgson? Quem  este Hodgson? - perguntou lorde
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Brandon. - No seria aquele tipo que mora perto da nossa casa de campo?
- Sim, claro. Voc conhece o major Hodgson, to boa pessoa e completamente apaixonado por sua filha.
- Mas ele  velho, muito mais velho - replicou lorde Brandon - Alm disso.
- Ele  mais jovem que voc, querido - falou docemente Olive. - No se pode dizer que voc seja um homem velho. Eu pensei que algum com um pouco mais de idade que 
Janet poderia cuidar dela e impedir-lhe de cometer os erros que muitas mocinhas cometem quando no tm um homem que as guie e as proteja.
- Certo, mas eu disse a Wynchester que pode casar com ela, e isto encerra a questo - respondeu lorde Brandon.
O duque, que estava prendendo a respirao, sentiu-se relaxar.
Ento Olive, naquela voz bajuladora que ele conhecia to bem,
 inclinando-se para seu marido, disse:
- Querido, sinto muito, mas, na sua ausncia, dei minha permisso para que o major Hodgson e Janet noivassem.
- No deveria ter feito isso - retrucou asperamente lorde Brandon.
- Nunca poderia sonhar ou pensar por um s momento que voc no desejasse a felicidade de sua filha - retrucou Olive.
- Eles falaram tanto do amor que os unia e voc sempre confiou em mim nos casos de corao.
- Isto  bem verdade. - comeou lorde Brandon, mas Olive continuou:
- Foi voc, meu querido George, quem me falou que a palavra de um ingls  sua carta de crdito, e eu no posso acreditar que voc queira que Janet, depois de ter 
dado sua palavra de que casaria em Harold Hodgson, volte atrs somente porque tem uma oferta melhor. Pareceria muito vergonhoso e indigno de seu nome.
- Bem, se voc pe as coisas desse jeito - comentou lorde Brandon.
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Foi neste momento que o duque interveio:
- Penso, milorde, que lady Brandon interpretou de maneira errada os sentimentos de Janet. Ela mesma me disse que, apesar de ter-lhe sido sugerido que deveria casar 
com este Hodgson, ficou to aterrorizada pela ideia que preferia fugir a ter algo a fazer com ele.
- Isto  verdade? - perguntou lorde Brandon.
- Foi isso que aquela menina desobediente lhe contou? perguntou Olive ao duque. - Oh, bem, devemos perdoar suas mentiras porque, qual  a mulher, jovem ou velha, 
que poderia resistir ao charme e ao encantamento de se tornar uma duquesa?
- Penso que a melhor coisa a fazer - declarou gravemente lorde Brandon -  falar pessoalmente com Janet. A propsito, onde est ela? No a tenho visto desde que 
voltei.
- Eu a levei comigo - disse o duque. - Neste momento est hospedada com minha av em Dover House em Wynchester.
Enquanto falava, viu a fria assomar aos olhos de Olive. Irritada, ela exclamou:
- Duque, penso que tenha tomado a si uma grande responsabilidade! Estou surpreendida por no ter pedido a minha permisso.
- A bem da verdade, isto  exatamente o que vim fazer hoje - replicou o duque com brandura.
- Bem, eu quero ver Janet e falar-lhe - ordenou lorde Brandon. - Quanto mais cedo ela voltar para casa, melhor.
- Voc est absolutamente certo, querido - concordou Olive, alarmada. - Mas, como sei o quanto  escrupuloso no que concerne  honra, deveramos pedir tambm ao 
major Hodgson que nos faa uma visita.
Passou para o outro lado da mesa e colocou suas mos nas de seu marido. Ele olhou dentro dos olhos verdes dela e ficou enantado.
- Naturalmente, se  assim que acha que deve ser feito rendeu-se ele.
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- Sim - confirmou. - Sei que voc tambm pensa como eu. E, dirigindo-se ao duque:
- Faria a gentileza de trazer aqui minha enteada o mais cedo possvel, talvez nesta mesma noite?
- Acontece - respondeu vagarosamente - que tenho um compromisso para esta tarde que me  impossvel cancelar. De qualquer forma - continuou -, trareiJanet de volta 
amanh de manh. Podemos marcar para o meio-dia?
- Sim, sim - concordou lorde Brandon. - Ao meio-dia ser suficientemente cedo e eu lamento, Wynchester, que as coisas no estejam correndo to bem como parecia quando 
voc chegou.
O duque levantou-se e, contornando a mesa, estendeu a mo para lorde Brandon.
- Posso somente esperar que voc e sua esposa resolvam seus problemas e decidam tornar-me um homem muito feliz
Assim espero - respondeu lorde Brandon.
Ao mesmo tempo deu uma olhada de esguelha para Olive. que lhe disse sem falar que quando estivessem sozinhos ele teria o tratamento merecido.
Ele curvou-se numa mesura, saudando-a:
- At logo, lady Brandon, esperarei ansioso pelo prximo encontro.
Ela deduziu que estivesse referindo-se ao encontro que ele deveriam ter naquela tarde, e havia sobre seus lbios um sorriso de triunfo quando o viu dirigir-se para 
a porta e sair.
O duque alcanou a carruagem que estava a sua espera e deu instrues ao cocheiro.
Enquanto os cavalos iniciavam seu trote, ele refletia que, dpois de ter visto o comportamento de Olive naquela manh, preferia morrer a t-la como esposa.
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CAPTULO IV
O duque chegou a Dover House pouco antes das nove horas da noite.
Como sua av jantava muito cedo, e normalmente em seu quarto, ele temia que Janet pudesse ter ido para a cama.
Assim que desceu de seu faetonte, com suas botas de Hessen lustrosas, apesar de um pouco empoeiradas, perguntou ao velho mordomo:
- Miss Scott ainda est acordada?
- Ela est na sala de visitas, Vossa Alteza, e todos ns estivemos preocupados que tivesse ocorrido algum acidente com Vossa Alteza.
O duque sorriu, enquanto respondia:
- No, Jackson, no aconteceu nada e estou chegando em casa so e salvo.
- Estas so boas notcias, Vossa Alteza - declarou Jackson, que o conhecia desde garoto.
Ele falava conduzindo-o pelo vestbulo, caminhando bem devagar porque sofria de reumatismo.
O duque o seguiu at alcanarem a porta da sala de visita onde entrou sem esperar ser anunciado.
Janet estava sentada no sof com um livro entre as mos e ao entrar, o duque percebeu que ela no estava lendo e sim fixando um ponto invisvel com aquela expresso 
assustada que ele conhecia to bem.
Virou a cabea quando ele entrou, e vendo quem era pulou p e correu em sua direo.
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- Voc voltou! - exclamou. - Eu tenho estado to desesperadamente preocupada com medo que lhe tivesse acontecido alguma coisa.
- Lamento ter deixado voc preocupada.
- Eu e sua av... estvamos inquietas - continuou Janet.
- Ela estava certa de que, estando to atrasado, devia ter lhe acontecido... um incidente, mas achei isso improvvel, visto a percia com que dirige.
No era exatamente um cumprimento e sim uma manifestao da sua reflexo sobre a misso em que ele se envolvera com Olive. Imaginava que ele estaria trazendo, como 
realmente estava, ms notcias.
Os olhos dela perscrutavam-lhe o rosto e ele falou com voz tranquila:
- Venha e sente-se, Janet, vou contar-lhe o que houve. Sentou-se obediente e comportada por fora, mas, por dentro,
ele sabia que ainda tremia.
O duque comeou a falar quando Jackson entrou no aposento, seguido por um criado com uma bandeja onde estavam uma garrafa de champanhe e um prato de sanduches.
- Pensei que Vossa Alteza gostaria de comer algo depois de uma viagem to longa - justificou-se Jackson. - Acredito que Vossa Alteza nem tenha jantado.
Janet espantou-se:
- Sem jantar? Ento precisa comer algo, logo.
- No estou com fome - respondeu o duque. Mas, Jackson, voc continua a cuidar de mim do mesmo modo quando eu era um garoto e voc costumava trazer-me os petiscos 
que tirava da mesa de jantar, depois que os hspedes acabavam de comer.
- Vossa Alteza precisa de algo mais substancioso que um sanduche - retorquiu Jackson com firmeza. - O cozinheiro ter algo pronto dentro de meia hora.
- Est bem - disse o duque bem-humorado -, j que voc insiste...
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O criado se retirou e o duque, pegando uma taa de champanhe, virou-se para Janet e falou: - Como voc v, sou bem cuidado na casa da minha av.
- Todos querem-no bem - comentou Janet. - Eles no suportariam que algo de errado lhe acontecesse.
O duque bebeu um pouco de seu champanhe e colocou a taa de lado. Depois, declarou:
-  em respeito aos sentimentos deste pessoal por mim, Janet, que ns teremos de salv-los daquilo que para eles seria um desastre total e absoluto. - Seus olhos 
mostraram desentendimento, mas no interrompeu o duque, que continuou:
- Explicarei o que aconteceu desde o comeo e espero que depois queira ainda me ajudar.
- Naturalmente que vou querer - replicou impulsivamente Janet.
O duque contou que chegara no momento em que o pai dela estava tomando o desjejum e como lorde Brandon se encantara ao ficar sabendo o motivo da visita.
- Estava pensando - continuou - que nossos problemas estavam resolvidos, quando sua madrasta entrou na sala de almoo.
Janet se surpreendeu e murmurou:
- To cedo?
- Soubera que eu estava na casa e, naturalmente, queria descobrir o motivo.
- O que ela disse?
O medo na voz de Janet era evidente.
- Uma mentira - explicou lentamente o duque. - Inventou que, na ausncia de seu pai, havia dado o consentimento para seu casamento com o major Hodgson, porque vocs 
estavam muito apaixonados, e que seria inaceitvel voc se portar to indignamente, mudando de opinio, apenas pela ambio de tornar-se uma duquesa.
Falara toda a verdade por achar melhor que Janet soubesse que deveriam enfrentar, e no ficou surpreso quando ela emitiu um pequeno gemido como o de um animalzinho 
ferido.
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Ento ela ergueu-se de um pulo, dizendo:
- H somente uma coisa que eu posso fazer. Desaparecer, como queria a princpio. Esconda-me! Por favor, me esconda onde ela no possa me encontrar!
Parada  sua frente, o corpo de Janet tremia de pavor.
Seus olhos se fixaram na Janet como se pensasse que sumindo na noite poderia escapar.
O duque manteve-se em silncio durante algum tempo, antes de declarar:
- Se voc fizesse isto e, mesmo que eu a ajudasse a esconder-se onde sua madrasta no pudesse encontr-la, isto ainda me deixaria a descoberto e eu cairia na armadilha 
que ela preparou para mim.
O modo com que ele pronunciou estas palavras obrigou-a a observ-lo e, lentamente, quase contra vontade, sentou-se de novo no sof.
- Eu no contei antes por no achar necessrio - explicou o duque -, mas agora eu quero que oua toda a verdade. Sua madrasta decidiu casar-se comigo e pretende 
que seu pai se divorcie dela citando-me como
 co-responsvel.
Ele falara sem emoo, mas, como esperava, Janet arregalou os olhos espantada com o que estava ouvindo. Baixando ento a cabea, disse, incoerentemente:
- De alguma forma suspeitava que ela estivesse ameaando-o, mas no com isso.
Suspirando, ela se lamentou:
- Como pode ser to cruel com papai, que a quer tanto e confia nela.
O duque continuou silencioso e; aps refletir, Janet perguntou:
- Ento, se papai se divorciar dela, significa que voc se casar com ela?
- Para me comportar como um cavalheiro honrado serei obrigado a fazer isso - esclareceu o duque. - Mas deixe que eu lhe diga, Janet, agora que eu compreendo como 
realmente
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ela  e percebo que por detrs daquele lindo rosto tem o corao e a alma de um demnio, prefiro morrer a torn-la minha mulher.
Compreendo - falou Janet. - Eu sinto o mesmo em relao ao major Hodgson. O que podemos fazer? Por favor, diga-me o que podemos fazer!
- Estudei nossa situao com muito cuidado - explicou o duque. - H somente uma maneira de nos salvarmos, embora eu esteja constrangido por propor-lhe tal soluo.
- Para salvar voc e a mim mesma eu faria qualquer coisa. qualquer coisa! - Teve um estremecimento que pareceu sacudir todo seu corpo antes de continuar: - Como 
poderia casar com um homem do tipo do major Hodgson e no ficar louca com o horror disto? Como poderia voc casar com minha madrasta e ferir todo o povo que acredita 
em voc?
- Exatamente - concordou o duque. - Por consequncia, deveremos tomar o que lhe parecer uma deciso drstica. Mas, como voc j disse, qualquer coisa  prefervel 
ao destino que sua madrasta preparou para voc.
Depois de uma breve pausa, Janet murmurou:
- O que devemos fazer?
- Devemos nos casar j - declarou o duque com toda tranquilidade.
- Casar-nos?
Viu que esta ideia nunca lhe tinha ocorrido e ela no estava entendendo o que ele queria dizer.
- Por qu? Como? - ela balbuciou, e ele explicou:
- Voc deve entender que  a nica soluo, e eu j tomei todas as providncias. Nos casaremos amanh e partiremos imediatamente para Paris, onde passaremos nossa 
lua-de-mel.
Fez uma pausa antes de continuar:
- No haver nada que seu pai possa fazer depois que o casamento tiver sido realizado, tanto ele como sua madrasta tero de aceitar.
- Mas, mas - murmurou Janet -, voc no quer casar-se comigo.
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- Penso que nenhum de ns dois deseja casar-se - falou o duque -, especialmente nestas circunstncias to desagradveis, mas no h outra alternativa. Na realidade, 
fui obrigado a prometer a seu pai e sua madrasta que a levaria de volta Brandon House amanh ao meio-dia.
Janet suspirou, e ele continuou:
- Quando eu parti, sua madrasta estava combinando com o major Hodgson para ele vir tambm, de forma que seu pai pudesse falar com os dois juntos.
Sua voz tornou-se mais profunda ao continuar:
- Tenho absoluta certeza de que, apesar de toda minh eloquncia para explicar que voc no gosta dele, sua madrasta dominar seu pai e o induzir a abenoar o seu 
casamento, como ela jura j ter feito.
Janet fechou os olhos antes de dizer:
- Ela sempre consegue dobrar meu pai, para dizer ou fazer tudo que ela queira.
- Bem, ento - resumiu o duque -, a nica coisa que poderemos fazer  casar.
Janet entrelaou os dedos antes de murmurar baixinho:
- Se ns nos casarmos, eu serei sua mulher?
- Voc ser minha mulher - respondeu o duque. - Penso que voc acabar achando isso mil vezes prefervel a estar casada com um homem velho que judia de animais.
No pde evitar de pr uma nota de cinismo nestas p lavras.
A maioria das mulheres que ele conhecia teriam pulado de alegria com a ideia de se tornarem duquesa e, com certeza, no mostrariam esta expresso preocupada e perturbada 
que Janet aparentava.
- Mas suponha - sussurrou ela - que, quando estivermos casados, eu faa coisas que lhe incomodem ou que cometa erros e voc passe a odiar-me. O que poderemos fazer, 
ento?
O duque sorriu e isso o tornou muito atraente e encantador.
- Antes de tudo eu cuidarei de voc, Janet, para que no
cometa muitos erros e, em segundo lugar, visto que ns nos casaremos desta maneira estranha para tentarmos tirar o melhor proveito da situao em que nos encontramos.
Fez uma pausa antes de continuar:
Sei que no vai ser fcil, mas acredito, uma vez que compartilhamos vrios interesses, que acharemos um modo simples de nos tornarmos bons amigos.
Sentiu que estava sendo um pouco formal falando assim.
Por outro lado, sendo Janet to jovem e inexperiente, imaginava que estar casada com um desconhecido devia ser um inquietante pulo no escuro.
Como ela se mantinha em silncio, ele continuou:
- H uma poro de coisas que gostaria de mostrar-lhe em Paris, alm de comprar-lhe um enxoval que dificilmente voc poder pedir que sua madrasta providencie!
Falou num tom divertido, como se fosse uma brincadeira, mas Janet no sorriu e falou simplesmente:
-  humilhante para voc ter de casar comigo, quando a nica coisa que possuo em todo o mundo so as roupas que estou vestindo.
- Pelo contrrio, acho que ser bastante interessante transformar voc de uma colegial muito graciosa numa linda e sofisticada lady - retrucou o duque. Viu a surpresa 
nos olhos de Janet e continuou: - Em verdade, j iniciei esta tarefa. Uma das razes de eu atrasar tanto meu regresso de Londres foi ter ido providenciar uma licena 
de casamento especial com o arcebispo de Canterbury, a quem, por sorte, conheo h alguns anos, e tambm fui comprar um vestido de casamento.
- Oh! Voc pensou em tudo! Ele sorriu e acrescentou:
- E um vestido de viagem e vrios outros que voc usar at podermos visitar os desenhistas de Paris, famosos no mundo inteiro.
Suas palavras, tinha certeza de no enganar-se, fizeram a cor voltar s faces plidas de Janet.
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Mas ainda ela argumentou:
- Voc est absolutamente certo de que, se formos casados como voc diz, minha madrasta no mandar meu pai em nosso encalo, para trazer-me de volta e talvez process-lo 
por casar comigo ilegalmente e por eu ainda ser menor e no ter sua aprovao?
- Naturalmente isto  possvel - ponderou o duque mas no estava sendo precipitado, Janet, quando afirmei e seu pai me aprovaria como genro, como muitos pais da 
sociedade o fariam.
Havia um pouco de cinismo em suas ltimas palavras.
- Assim estou bastante tranquilo quanto a ele no querer tornar-se objeto de riso, tentando anular um casamento que seria uma vantagem social para qualquer moa.
- Isto  verdade - concordou Janet. - Voc no acha possvel minha madrasta nos interceptar. antes de partirmos
Ela olhava em volta enquanto falava, como se estivesse temendo que sua madrasta entrasse no aposento a qualquer instante.
Mais uma vez lembrou ao duque a cora pintada do parque, pronta a fugir ao primeiro sinal de um estranho.
- Tenho certeza - disse ele com meiguice - que sua madrasta estar esperando por nossa chegada, como eu combinei, amanh ao meio-dia. Agora, eu sugiro que, enquanto 
eu como alguma coisa, voc suba, desembrulhe as roupas que comprei e, se houver alguma alterao a ser feita, pea s empregadas de minha av que faam para amanh 
de manh
Pela primeira vez, desde seu retorno, Janet sorriu para ele
- Como voc adivinhou o meu tamanho?
- Eu sabia sua altura - disse o duque -, porque sua cabea chega pouco acima dos meus ombros, e expliquei para a costureira como voc era esguia. Embora ela no 
me acreditasse, eu estava convencido de que meus clculos eram exatos
- Seria muito embaraoso - falou Janet - se, depois de todo esse trabalho que voc teve, os vestidos fossem muito estreitos e eu fosse mais gorda do que voc imagina.
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O duque riu.
- S experimentando-os poder ter certeza. Agora v para a cama, Janet. Passarei para apanh-la amanh s nove horas. Casaremos na capela do castelo e ningum saber 
de nada at que tenhamos atravessado o Canal e estejamos a caminho de Paris.
- Voc no vai avisar sua av? - quis saber Janet.
-  muito tarde e ela j est dormindo - informou o duque. - Amanh cedo no terei tempo de avis-la. Mas lhe escreverei uma carta; sei que ela ficar confusa e 
divertida porque gosta de tudo que  diferente, e afastar de alguma maneira a curiosidade dos outros parentes quando eles ficarem sabendo do anncio do nosso casamento 
pelos jornais.
Janet se levantou e o duque imitou-a. Janet, aproximando-se mais dele, perguntou:
- Por favor, jure que fazendo isso voc estar. realmente ajudando a voc mesmo, assim como a mim.
- Eu lhe asseguro - reforou o duque - que no existe oma maneira possvel de eu me ver livre de sua madrasta, do mesmo modo como estou seguro de que no h outro 
jeito de
voc se livrar do major Hodgson.
- Ento, obrigada - agradeceu Janet - por ser to gentil e de no impedir ou atrapalhar. seus intenlos.
Falaremos sobre isso amanh - retrucou o duque. Agora faa o que eu disse, Janet, e v para a cama. Tente dormir, porque, como minha esposa, quero que voc se apresente 
to linda que aqueles que no sabem os verdadeiros motivos do nosso casamento precipitado imaginem que  por isso e por temer perd-la que nos casamos to depressa.
Sabia, ao dizer isso, que ela faria tudo a seu alcance para ficar bonita para ele.
Assim que Janet se foi, Jackson anunciou que seu jantar estava servido e ele dirigiu-se para a sala de jantar.
Pensava, com um leve sorriso nos lbios, que todas as mulheres so iguais. Elas no resistem a um desafio quando se trata de sua aparncia.
Todavia, ele estava pensando em si mesmo, quando de volta ao castelo mandou chamar o pastor que vivia numa das extremidades do grande edifcio.
Depois de dar-lhe as instrues quanto ao que devia ser feito sentou  sua escrivaninha para escrever para lorde Brandon
Mandou chamar Mr. McMullen para inform-lo de que aquela carta deveria ser levada por um mensageiro a Brandon Housi exatamente s doze horas em ponto, nem um s 
minuto antes
O duque escrevera tambm uma carta para sua av, que pretendia entregar ele mesmo quando fosse buscar Janet.
Ento informou a McMullen que a capela deveria ser decorada logo cedo, no dia seguinte, com todas as flores brancas que pudessem ser colhidas nos jardins e nas estufas.
Seu secretrio arregalou os olhos para ele e, sendo impossvel ignorar sua pergunta silenciosa, o duque explicou um pouco secamente:
- vou explicar, McMullen. Eu vou me casar e quero que voc use todo seu tato e diplomacia no trato com todas as pessoas que o afligiro com perguntas sobre o porqu 
de isto ter acontecido.
- Posso oferecer a Vossa Alteza minhas mais calorosas congratulaes? - perguntou McMullen. - Imagino que a lady em questo seja miss janet Scott.
- Voc acertou - respondeu o duque.
- Neste caso - Mr. McMullen sorriu - acredito que Vossa Alteza ser muito feliz. Eu pessoalmente falei muito pouco com miss Scott, mas Mrs. Robertson, a governanta, 
todas as empregadas ficaram entusiasmadas com sua beleza e acharam-na uma das mais agradveis jovens que estiveram no castelo.
Isto surpreendeu o duque.
Sabia que seu secretrio estava lhe dizendo a verdade, porque no somente Mr. McMullen nunca havia lhe mentido, comotambm nunca havia sido bajulador e normalmente 
era muito sucinto em seus comentrios.
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No estava impressionado pelo fato de que, parecendo ela to magra, plida e assustada, tantas pessoas a achassem bonita, mas de haver suposto que ela tinha uma 
beleza diferente, no tendo uma beleza conforme o que ele pensava ser seu gosto.
Em voz alta, respondeu:
- Obrigado, McMullen, e agora eu quero que voc envie o anncio do meu casamento para a imprensa. Voc responda a todos que perguntarem que meu casamento aconteceu 
to depressa porque os pais de minha noiva achavam-na muito jovem para casar e eu no queria esperar e talvez perd-la nesse meio tempo.
- Em outras palavras,  uma fuga de namorados, Vossa Alteza.
- Exatamente - concordou o duque. - E faa-a parecer to romntica quanto puder! O que as pessoas poderiam esperar de mim, e isto certamente compensar todos os 
comentrios desagradveis ou desabonadores que possam ser feitos sobre o nosso comportamento.
- Entendo perfeitamente, Vossa Alteza - afirmou McMullen. - Mais uma vez, minhas congratulaes.
Quando ele saiu, o duque foi para a cama, mas ficou acordado pensando que este casamento seria bem diferente de qualquer um que ele um dia tivesse imaginado.
Sempre soubera que na sua posio deveria casar-se com alguma moa cujo sangue fosse to nobre quanto o dele, mas tambm presumira que a me de sua noiva pertenceria 
 alta sociedade, fato que comportaria uma imensa congregao de amigos na igreja, seguida de uma enorme recepo.
Haveria tambm uma exposio de presentes de npcias que, sendo ele duque, tornaria um quarto parecido com uma gruta de Aladim.
Em lugar disso, no casamento do dia seguinte no iria haver espectadores, com exceo de seu secretrio, e ele no seria obrigado a apertar as mos de mais de quinhentas 
pessoas.
Sob este aspecto seu casamento era um alvio e podia somente desejar que o que viria a seguir no fosse to difcil.
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"Sendo Janet to jovem", pensava ele, "deverei ensinar-lhe as formalidades da corte e, uma vez que ela tenha se acostumado a ser uma duquesa e que tenha feito amigos 
da sua idade, poderemos viver cada um a prpria vida, guardando apenas as aparncias quando estivermos em pblico."
Isto lhe parecia bastante satisfatrio, e o duque afastou deliberadamente algumas perguntas que se apresentaram a seu esprito.
Tinha tambm uma incmoda sensao de que Janet no estaria feliz, como qualquer outra moa comum, simplesmente com a posio social que ele lhe oferecia como sua 
esposa.
Suspeitava que ela quisesse mais da vida e talvez mais do que ele pudesse dar-lhe.
Ento refletiu que estava sendo levado por sua imaginao, e resolveu que quanto mais cedo comeasse a dormir tanto melhor.
Na manh seguinte, assim que foi vestida, Janet no pde evitar de sentir-se excitada.
Para comear, nunca imaginara possuir algum dia algo to lindo como o vestido de noiva que o duque trouxera de Londres.
Em verdade, ela no estava surpresa que ele lhe casse quase com perfeio.
J havia percebido que o duque era to inteligente e to bem organizado em tudo que fazia a ponto de ser inevitvel que ele pudesse adivinhar seu tamanho at a ltima 
polegada.
Ele trouxera tambm um vestido que tinha certeza fora tirado de algum conto de fadas, daqueles que gostava de ler no convento.
Devido  indiferena com que era tratada em famlia, s seu pai ocasionalmente lhe contara histrias e nunca nenhum outro parente. Por isso ela lia as histrias 
nas quais as personagens de vez em quando se tornavam completamente reais.
Naturalmente, depois de crescida, e ouvindo as outras moas comentarem acerca do que aconteceria quando fossem se casar, ela encontrou em seus sonhos um prncipe 
encantado que. agora
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tinha certeza, era exatamente igual ao duque: o perfeito cavalheiro em todos os esportes masculinos e ao mesmo tempo gentil, respeitoso e em quem poderia confiar 
quando as coisas sassem erradas ou quando sua vida estivesse em perigo.
Nas histrias, via-se s vezes capturada por bandidos ou ameaada por animais selvagens, ou at mesmo por duendes e gnomos.
Mas o prncipe sempre a salvava no ltimo instante e ela refletia, enquanto acabava de se arrumar, que era exatamente o que o duque estava fazendo agora.
Ele a estava salvando de uma bruxa escondida em forma de sua madrasta, e quando ele a tivesse transportado em seu tapete mgico seria impossvel que algum a capturasse 
de novo.
- Est linda, miss, realmente est! - exclamou a governanta que a ajudava a vestir-se.
Olhando-se no espelho, Janet sentiu-se realmente transportar para seu prprio conto de fadas.
Depois das insossas roupas colegiais que usara no convento, e que eram tudo o que tinha para usar depois que voltara para casa, era extraordinrio como agora parecia 
diferente.
Seu vestido era de gaze branca salpicada de pedrarias como pequenas gotas de orvalho e enfeitado por babados presos com pequenos buques de flores de laranjeiras, 
iguais queles da grinalda que encimava o longo vu.
Janet no sabia que o vestido tinha sido confeccionado e acabava de ser terminado por uma costureira da corte em Bond Street para uma princesa estrangeira que o 
havia encomendado quando estava em Londres e que o mesmo deveria ter sido enviado para Portugal no dia seguinte.
O duque, contudo, atravs de splicas, bajulaes e subornos, convencera a costureira, com a qual no passado havia gasto montes de dinheiro, a vender-lhe o vestido 
e a fazer outro igual a velocidade recorde para envi-lo em tempo para a princesa. Ele havia escolhido tambm um gracioso traje de viagem em cetim azul profundo 
que era a cor dos olhos de Janet, acompanhado por uma capa orlada de arminho, para o caso de fazer frio quando cruzassem o Canal da Mancha.
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Um pequeno gorro ornamentado por plumas azuis de avestriu completava o conjunto.
Permitiu que a costureira acrescentasse vrios outros vestidos que j estavam prontos e, lembrando que Janet no tinha nada com ela, comprou uma coleo de roupa 
ntima que ele sabia ser do estilo de muita elegncia usada pelas muitas mulheres que, no passado, o haviam fascinado quando lhe abriam a pori de seu quarto.
Para Janet, acostumada com a austeridade dos seus anos de colgio, tais peas eram por demais lindas para serem usadas
Quando vestiu pela primeira vez em sua vida uma camisa de seda enfeitada de renda e meias de autntica seda, ela perguntou como o duque podia ser to conhecedor 
das roupas que encantam uma mulher.
- Agora sente-se, miss, enquanto fixo o vu - estava dizendo a empregada.
Olhando-se no espelho, Janet arregalou os olhos para a imagem refletida, pensando ver algum que no conhecia e que sem dvida alguma era uma iluso de sua prpria 
mente.
Quando vieram avis-la que o duque a estava esperando, desceu as escadas sem ningum para v-la a no ser o velho Jackson, dois criados e a empregada que a ajudara 
a vestir-se
Observando isso, sentiu como se estivesse deixando para trs o mundo de solido e de terror para entrar num conto de fadas com um homem que era diferente de qualquer 
outro que ela tinha conhecido at ento.
O duque, extremamente elegante, lhe sorriu, e Janet sentiu no peito uma sensao estranha e desconhecida.
Ele pegou sua mo para ajud-la a descer os degraus at onde esperava a carruagem fechada e, antes que ele fechasse a porta, o velho Jackson falou:
- Deus abenoe Vossa Alteza e a sua noiva, e eu sei que juntos encontraro a felicidade pelo resto da vida.
- Obrigado, Jackson - agradeceu o duque.
O velho homem falara com tanta sinceridade que Janet
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sentiu os olhos se encherem de lgrimas e no conseguiu dizer nada.
"Ningum imaginar", pensava enquanto se afastava, "que no somos um casal comum de noivos que se amam muito um ao outro, mas isto  o que o duque quer que todo 
mundo pense e eu devo me comportar como ele deseja."
O duque inclinou-se para pegar, no pequeno assento em frente a eles, um buque de flores brancas.
- Estas flores vm da minha prpria estufa - disse ele.
- Sempre esperei que minha noiva as levasse no dia do meu casamento.
- Elas so muito lindas - conseguiu dizer Janet, olhando para as orqudeas em forma de estrela.
- Trouxe as plantas comigo quando voltei da ndia continuou o duque. - Um dia vou contar-lhe a respeito delas, porque estou certo de que voc achar que muitas espcies 
na estufa so incomuns e, eu penso, verdadeiramente lindas.
- Estou certa de que gostarei - concordou Janet.
Era bastante perceptiva para intuir que o duque estava tentando conversar de maneira normal para assegurar-lhe que nada de emocionante estava acontecendo.
Chegando ao castelo, sentiu-se tomada por um momento de pnico.
"Suponhamos que eu o decepcione e ele fique zangado comigo", pensou ela. "E que depois de tudo papai nos siga e denuncie nosso casamento como ilegal..."
Ento, enquanto os criados faziam descer sobre os degraus o tapete vermelho para abrir a porta, o duque declarou:
- Seja bem-vinda, Janet,  sua futura casa e, embora o nosso casamento seja realmente inslito, sei que nos empenharemos em encontrar a felicidade juntos.
Sua voz era tranquila, mas suas palavras eram muito claras, e ele percebeu que havia pensado naquele pequeno discurso como sendo a coisa mais acertada para dizer-lhe 
naquela circunstncia.
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Em vista disso, ela lhe sorriu atravs de seu vu e se deixou conduzir por ele escada acima, atravs do vestbulo, ao longo de um vasto corredor onde estavam pendurados 
quadros, antigas armaduras, antes de ouvir  distncia o som de um rgo tocado com extrema sensibilidade.
A capela estava na parte mais antiga do castelo e a luz e sol daquele comeo de manh entrava atravs das Janets e vidros coloridos.
Havia uma profuso de flores brancas e sua fragrncia, juntamente com a msica, deu a Janet uma sensao de beleza incomparvel. Havia tambm uma indizvel atmosfera 
de santidade.
Convencia-se de que aqueles que haviam rezado na pequena capela ao longo dos anos haviam deixado atrs de si as vibraes de sua f.
Como soubesse o que estava sentindo, o duque, em lugar de oferecer-lhe o brao, para conduzi-la pela nave da igreja, segurou sua mo e, como seus dedos tremiam, 
frios, o calor seu aperto invadiu seu ser como um feixe de luz solar.
O pastor, que era um homem de idade, estava esperando-os em frente ao altar, e assim que ele iniciou o servio religioso Janet arriscou uma olhada ao duque que lhe 
pareceu muito circunspecto, como se percebesse que aquele era um momento decisivo e irrevogvel na sua vida.
Quase com paixo ela rezou a Deus e a sua me, que estava no cu, pedindo que a ajudassem, e no mesmo instante ela soube que o que a esperava no seria to difcil.
Alm disso, ela deveria agradecer ao duque com cada nervo de seu corpo e com cada pensamento de sua mente por t-la salvado do major Hodgson e de sua madrasta.
Quando sentiu a aliana em seu dedo e ouviu a voz calma e profunda do duque repetindo depois do reverendo as palavras pelas quais se tornava sua esposa, entendeu 
a sorte que ela tinha tido no sendo forada a casar com um homem que desprezava e do qual havia fugido com horror.
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Ento ela e o duque ajoelharam-se, e o pastor os abenoou. enquanto ele fazia isso, Janet tinha a certeza de ouvir no silncio da capela as vozes dos anjos e de 
sua me dizendo as mesmas palavras que lhe havia dito antes de morrer:
- Deus est sempre com voc, minha querida, nunca duvide disso. Acredite Ele e sempre ser salva.
Invadiu-a tambm uma onda de felicidade porque, agora que era a duquesa de Wynchester, nunca mais ningum poderia feri-la ou assust-la.
Gostaria de dizer ao duque o que estava sentindo, mas no havia tempo. Em lugar disso, subiu correndo as escadas e trocou de roupa para viajar.
Seu lindo vestido de noiva foi empacotado em seu ba, e uma hora e quinze minutos aps o casamento estavam viajando no coche de viagem do duque, puxado por seis 
cavalos.
Janet percebia com intensidade a presena do duque ao seu lado e procurava um assunto para abordar, quando ele, tirando o relgio do bolso do seu colete, disse:
- So nove e quarenta e cinco. Temos exatamente duas horas e um quarto para estar fora de alcance antes que seu pai e sua madrasta saibam o que fizemos.
O modo como ele falou desfez o sonho que a havia envolvido como uma nuvem dourada a partir do momento em que pusera seu lindo vestido de noiva.
com dificuldade, lembrou que o duque no era o prncipe encantado com quem ela o havia identificado.
Ao contrrio, era um homem com os mesmos problemas que a prpria, ameaado por uma mulher cruel e vingativa, que reagiria com fria quando soubesse o que havia acontecido.
Impulsivamente, porque estava assustada, Janet levantou a mo e a fez escorregar para dentro da do duque.
- Voc tem certeza - perguntou - de que minha madrasta no conseguir nos encontrar em Paris?
- Se ela conseguir, o que poder fazer? - inquiriu o duque, alegremente. - Ns ganhamos, Janet, ns ganhamos dela!
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Havia uma conotao de jbilo em sua voz, que Janet achou irresistvel.
- Ns ganhamos dela - repetiu Janet.
Por mais que tentasse ficar to feliz quanto ele, sentia um desconfortvel pressentimento de que sua madrasta no admitiria ter sido vencida.
CAPTULO V
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Quando chegaram a Folkestone, Janet estava muito cansada.
Por ser uma jornada completamente atravs do campo, no foi possvel faz-la por trem e, portanto, eles viajaram pela estrada, trocando os cavalos em cada parada 
nas hospedarias.
Pelo fato de o duque fazer este percurso regularmente, vindo do castelo de Wynchester, mantinha seus prprios cavalos nas estalagens do caminho, de forma que a jornada 
foi completada em tempo recorde.
A velocidade em que eles viajaram no permitiu que conversassem muito e Janet dormiu a maior parte do caminho.
Ao deixarem a carruagem, foram imediatamente para bordo do iate, ancorado no Quayside, uma nova aquisio da qual o duque se orgulhava muito. Tinha dispositivos 
dos mais modernos e todo o mobilirio parecia novo em folha.
Janet ficou agradecida pela sugesto do duque de ir para sua cabine e se arrumar para dormir.
- Quando chegarmos a Paris -  disse ele -, naturalmente contratarei uma camareira para voc, mas at l, sinto muito, voc dever fazer tudo sozinha.
Janet riu.
- Esta  uma coisa que tenho feito durante toda a minha vida, assim no ser nenhum castigo - respondeu ela.
Ao dizer isso, lhe ocorreu se uma camareira no seria de certa forma um estorvo e se, na realidade, ela no preferiria arranjar-se sozinha.
O camareiro de bordo trouxe seu jantar numa bandeja e comunicou-lhe que o duque estava comendo o dele no convs.
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- Assim que Sua Alteza termine, sairemos do porto. O nui est tranquilo e no ser desagradvel para Vossa Alteza.
- Estou certa de que no - respondeu Janet.
Ela sabia, porque seu pai lhe havia dito, que nos navios os camareiros atendiam s damas em suas cabines.
Esperava que isso a deixasse embaraada, mas o camareiro que trouxera seu jantar era um homem de meia-idade com rosto queimado pelo sol e um tique nos olhos.
Janet no sentiu a menor timidez, mesmo estando sentada encostada nos travesseiros vestindo um casaquinho cheio de babados cor-de-rosa sobre uma camisola difana 
que o duque comprara para ela em Londres.
De fato, sendo tudo to diferente daquilo que j havia experimentado, em sua sensao de irrealidade ela conversou com o camareiro com toda naturalidade quando ele 
veio pegar a bandeja vazia.
Quando achou que poderia dormir, o duque entrou em sua cabine.
Ela sorriu-lhe e disse:
- O camareiro disse que voc teve um excelente jantar. Eu tambm comi muito bem, porque a comida aqui  deliciosa.
- Eu escolho meus cozinheiros com muito cuidado. Sentando-se ao lado da cama, ele perguntou: - Como est voc? Espero que no esteja por demais cansada.
- Eu estava muito excitada para sentir o cansao - respondeu Janet -, mas o embalo das ondas logo me fez relaxar.
No demonstrando a mnima emoo, o duque comentou:
- Receio que esta lhe parea uma noite de npcias muito esquisita por no ser aquela que voc esperava.
Para sua surpresa, Janet soltou uma exclamao:
- Sei do que voc est falando - respondeu ela, inocentemente. - Que eu deveria ter jantado com voc! Para dizer a verdade, at que tinha esquecido que era... nossa 
noite de npcias. A nica coisa em que conseguia pensar era no alvio. de ter escapado de minha madrasta! E, agora que seu lindo iate
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deixou o porto, no haver chance de ela ou papai nos impedir de deixar a Inglaterra.
O duque foi tomado de surpresa, em seguida sorriu pensando queJanet era mesmo imprevisvel e diferente de todas as mulheres que ele conhecera.
No conseguia imaginar nenhuma das mulheres a quem havia dado ateno no passado se esquecendo por um segundo sequer que ela era a noiva e ele o seu noivo.
A noite de npcias deveria ser algo muito especial e se esperaria dele que desempenhasse seu papel com ardor.
Por um momento, assomou-lhe  mente a ideia de que, apesar da deciso que ele havia tomado a este respeito, seria melhor sugerir a Janet que agora eles deveriam 
conduzir desde o comeo uma vida normal de casados.
Mas estava convencido de que isso iria assust-la e que ela o olharia com o mesmo terror nos olhos que tinha quando a havia encontrado.
"Ela  to inocente", refletiu, "que eu deverei trat-la com cuidado e no fazer nada que possa assust-la at que me aceite como amigo, algum em quem possa confiar."
Portanto ele disse:
- Voc est a salvo agora. Garanto que nenhum dos dois ser perturbado at chegarmos  Frana. Tenho certeza de que seu pai no pensar que vale a pena ir atrs 
de ns at Paris.
Janet soltou um fundo suspiro.
- Ento estamos livres!  por isso que estou me sentindo to feliz.
- Quero que voc se sinta feliz, Janet. Desde quando nos encontramos, voc tem estado assustada e agitada e esta  uma coisa que eu no gostaria que continuasse.
- Eu no estou assustada. no mais.
O duque levantou-se de onde estava sentado.
- Ento vou deix-la dormir. Quando acordar, poderemos continuar nossa jornada sem preocupaes que venham a estragar o que eu espero seja uma lua-de-mel muito feliz.
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- Tenho certeza de que ser - falou Janet. - Queria agradecer por me trazer aqui e impedir que minha madrasta tenha alguma autoridade sobre mim. Isto  verdade, 
no ? Agora que sou sua esposa ningum pode me mandar fazer coisa que me assustam.
- Ningum, a no ser eu!
Pensava com estas palavras atrair a ateno de Janet para ele, e no estava preparado para a risadinha dela enquanto respondia:
- Voc  muito gentil e compreensivo. Nunca poderia ser um monstro como minha madrasta, por isso, se me der uma ordem, eu vou obedecer.
- Este  um passo na direo certa - sorriu o duque -,  aquilo que todas as mulheres deveriam sentir com relao a seus maridos.
- Voc deveria ter me avisado - falou Janet, em voz baixa - que eu deveria ter jantado com voc esta noite. Foi irresponsabilidade minha
 t-lo deixado sozinho.
- Voc estava cansada depois da longa viagem. Seria pouco lisonjeiro e bastante humilhante para mim ver minha noiva bocejando e talvez at cair no sono enquanto 
eu estava falando com ela.
Janet deu-lhe uma olhada rpida para verificar se ele falava srio ou caoando. Declarou, ento:
- Amanh remediarei minha falha. Mas o que me aflige mais  pensar que, como voc est acostumado com senhoras sofisticadas, amveis e muito argutas, com certeza 
acaba bocejando com minha conversa.
- A nica resposta para isso  esperar para ver. Durma Janet, e
 lembre-se somente de que fomos muito inteligemtes e que conseguimos lograr nosso inimigo.
- Espero que voc tenha razo - respondeu Janet num fio de voz. - Boa-noite para o marido mais gentil e inteligente do mundo a quem estou extremamente grata.
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Naturalmente ela no esperava que ele a beijasse e o duque saiu da cabine, fechando a porta atrs de si.
Foi at a cabine de direo observar o capito levar o iate para fora do porto.
Meditava, na luz fraca provocada pelos ltimos revrberos do pr-do-sol, que o mundo era um lugar muito mais feliz do que fora nos ltimos dois dias.
Ainda no conseguia acreditar que conseguira escapar da armadilha que Olive armara para ele e que, se no fosse pela apario milagrosa de Janet, ele no teria como 
libertar-se.
Pensando nela, teve o pressentimento desagradvel de que as coisas iriam se complicar no futuro, quando voltassem para a Inglaterra.
Todavia, no permitiu que esta ideia o abalasse.
Depois de descer para sua cabine, deitou-se na confortvel cama que havia escolhido para seu iate. Continuou pensando que o nico problema agora era tornar Janet 
feliz e fazer o possvel para que sua madrasta no a incomodasse.
Mesmo tendo assegurado a Janet que eles haviam escapado com inteligncia, sabia que em Olive teria um inimigo imprevisvel que, de alguma forma, procuraria vingar-se 
deles.
- Estou me deixando levar pela imaginao - refletiu o duque antes de cair no sono. - No h nada que ela possa fazer. Ficaremos fora de seu caminho, mesmo que isto 
custe a Janet no ver mais seu pai.
Depois da travessia do Canal da Mancha, viajaram at Paris, onde chegaram tarde da noite.
Desta vez Janet no estava cansada, mas excitada, e quando estavam saindo da Gare do Nord ela sentou de frente  Janela para poder observar as altas casas cinzentas 
com suas venezianas fechadas.
Reparou tambm nas pessoas que caminhavam pelas ruas iluminadas pelos lampies a gs, as quais pareciam, como ela disse ao duque, exatamemte como deveriam parecer 
os franceses. O que voc quer dizer com isso? - perguntou ele, divertido.
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 -  Muito elegantes, muito alegres e realmente muito vivas.
- explicou.
O duque achou a descrio engraada e muito adequada.
Nos dias subsequentes ele descobriu que Janet possua uma forma original de descrever tudo que via diferente do que ele esperava.
Por ter ficado encarcerada num convento durante os ltimos quatro anos, ele acreditava que Janet ficaria atnita e chocada com as coisas grandiosas que eles viam.
Em vez disso, ela descobriu que a beleza de Paris a interessava, e o duque percebeu que observava as mulheres e e homens elegantemente trajados como se eles participassem 
de um espetculo e no tivessem relao com a vida real.
 sua chegada, Janet havia ficado emocionada com a casa do duque. Ele comprara essa propriedade somente dois anos antes. Era bela, suntuosa e estava situada nos 
Champs Elyse:
Pertencera a um aristocrata francs que, por motivos econmicos, tinha sido forado a retirar-se para seu castelo campo e a havia oferecido ao duque de portas fechadas.
- Somente voc, Wynchester - havia-lhe dito -,  suficientemente rico para pagar o preo que eu peo e tambm para apreciar os tesouros que foram acumulados nela. 
Duram sculos por meus ancestrais.
O duque gostara do cumprimento e no havia hesitade porque sabia que era uma casa fina e seu contedo, excepcional. Achou que era exatamente a casa que ele queria 
para ficar quando visitasse Paris, coisa que fazia com bastante frequncia
L poderia aproveitar seus affaires de coeur sem preocupar-se com serviais que pudessem contar coisas aos maridos das mulheres e sem os mexericos de que seria vtima 
em Londres
Havia planejado, apesar de no gostar de pensar nisso agora levar Olive para Paris durante os fins de semana em que lord Brandon estivesse na Esccia.
Imaginara ser uma jornada muito fatigante para uma to breve visita e no falara disso com ela.
Agora, rejubilava-se que ela no tivesse contaminado com sua presena os lindos aposentos onde estavam pendurados tapearias e quadros de artistas franceses clebres.
Tambm no tinha o que recear ao instalar Janet no requintado dormitrio Lus XIV em cujo forro estava Vnus saindo das guas.
-  uma casa de sonho! - exclamou Janet, quando sentou  mesa para o jantar.
O cozinheiro havia se esmerado no seu preparo, e quando acabaram de jantar Janet comentou:
- Este  um manjar que poderia ter sido servido no Olimpo. O duque sorriu com o entusiasmo de sua voz.
- Voc est sugerindo que temos algo em comum com os deuses? - perguntou ele.
- Naturalmente! - respondeu Janet. - Voc no poderia ser ningum mais. No esquea que eles esto sempre descendo do Olimpo para aproveitar as delcias dos seres 
humanos e, claro, para confundi-los e desnorte-los.
- Voc acha que foi isso que eu fiz com voc? - o duque indagou,
 olhando-a de modo srio.
Janet colocou os cotovelos sobre a mesa e, nesta postura, ele a achou extremamente atraente.
De repente ele teve a sensao de que algo estava faltando e logo percebeu o que era. Janet no estava usando nenhuma jia.
No havia pensado nisso; todas as mulheres que conhecera sempre reluziam como um lustre. Repreendia-se por ter sido um pouco omisso ao no perceber que Janet, sendo 
to jovem, no possua jias.
Viu que ela o estava estudando com seus grandes olhos azuis, quase como se ele fosse irreal, talvez como um dos quadros das paredes.
- No que voc est pensando? - perguntou o duque.
Estou tentando pr em palavras o que eu sinto por voc.
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- J me disse que eu sou gentil e compreensivo.
- Voc  ambas as coisas para mim, mas eu estava pensando em voc como homem e acho que. somente agora  que eu me dou conta de como. voc  excepcional. - O duque 
ergueu as sobrancelhas, mas no a interrompeu. - Posso entender por que as mulheres ficam apaixonadas e os homens o admiram. por todas as coisas que tem feito e 
por ser um bom desportista. Mas penso que h muito mais em voc.
- Em que sentido? - perguntou o duque.
-  difcil descrever uma personalidade to magntica com palavras que muitas vezes levam a uma interpretao equivocada. Tenho certeza de que j descobriu que  
um lder nato, mas penso que talvez no esteja utilizando esta liderana da maneira correta. O duque estava estupefato quando falou:
- Eu no entendo. Explique-me o que est dizendo.
-  o que estou tentando fazer - respondeu Janet. Talvez por no pertencer a seu mundo, eu veja as coisas de maneira diferente de seus amigos. Como disse, voc guia 
as pessoas e elas o admiram por suas conquistas, mas penso que voc no se d conta, ou ningum ainda lhe disse, que voc pode conduzir de uma maneira bem diferente.
- Eu no estou entendendo - insistiu o duque. - O que voc est sugerindo?
- Os gregos, de cujos deuses estvamos falando h pouco
- explicava Janet -, conduziam o mundo com o pensamento, e eu estou certa de que voc contribuiria muito nesse sentido.
O duque, surpreso e confuso, retrucou:
- Acho extraordinrio o que voc est dizendo, Janet. Mas de que maneira voc acredita que eu poderia conduzir o mundo em pensamento, como voc diz?
Ela fez um pequeno gesto de impotncia com as mos.
-  isto que estou tentando pr em palavras. Talvez na poltica, ou algo mais profundo e mais fundamental. Eu no consigo evitar imaginar, por ser voc to superior 
 mdia das pessoas, onde voc seria mais necessrio.
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O duque recostou-se em sua cadeira.
- Como pode falar dessas coisas se conhece to pouco do mundo e viveu os ltimos quatro anos num convento?
- Posso parecer impertinente, mas, sendo o meu um convento francs, as freiras constantemente discutiam poltica e a situao mundial. Apesar de abordarem o assunto 
exclusivamente sob o aspecto religioso, pude entender que o que est faltando na Frana, na Inglaterra e, desconfio, em outros pases,  a liderana que vem, no 
dos padres, mas das personalidades polticas e sociais.
Ela ofereceu-lhe um sorriso tmido e acrescentou:
- De pessoas como voc, que podem alterar o mundo porque esto em condies de faz-lo.
O duque no se lembrava de algum, em toda sua vida, que lhe tivesse falado desta maneira.
Estava absolutamente atnito que ela pudesse falar assim, e nunca passara nem de longe em sua imaginao que em sua primeira noite em Paris ocorreria uma conversa 
como aquela.
O dia seguinte foi muito diferente.
Antes de Janet acordar, ele tinha mandado avisar muitos dos principais costureiros que eles teriam de ir a sua casa, mesmo que se tratasse do rei deles, Frederick 
Worth.
Nesse meio tempo, o duque encomendou tantas coisas daquilo que pensava que Janet estivesse precisando, que esta protestou, por serem demais.
- Nunca nenhuma mulher tem roupas demais - replicou ele.
- Ento eu sou uma exceo - insistiu Janet. - Por favor, voc j me deu tantas coisas que eu fico confusa. Ademais, eu nunca terei tempo de usar tantos vestidos.
O duque riu.
- Dentro de poucos meses, talvez antes, voc me dir que no tem nada para vestir e pensar que sou mesquinho se no gastar de novo a mesma quantidade de dinheiro.
Na realidade, ele achava divertido constatar a diferena que as roupas produziam em Janet.
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Em breve conhecia, mesmo sem a ajuda dos costureiros franceses, quais cores combinavam melhor com ela; e, como ele a achasse lamentavelmente magra, os franceses 
admiravam sua figura que tinha a silhueta exata para mostrar o dernier cri da moda.
Janet, embora achasse as sedas, os cetins, os chiffons, os veludos, as rendas, as fitas e as flores deslumbrantes, sentiu-se aliviada quando, tendo recebido um pedido 
enorme, os costureiros foram embora, expressando com volubilidade seus agradecimentos.
- Agora vamos sair para tomar um pouco de ar - convidou o duque. - Quero lev-la para almoar no Bois.
Eles foram em sua carruagem e ele achou que Janet, em seu elegante vestido verde-folha, era to bonita quanto as rvores  sombra das quais ela sentava.
Desaparecera a atitude sria que ela havia mostrado na noite anterior. Tagarelava como uma criana, fazendo perguntas sobre as rvores, as pessoas, os restaurantes 
e tudo o mais que estimulasse sua fantasia.
Sua risada natural, pensou o duque, era contagiosa, e nunca ele havia conhecido uma mulher que fosse to pouco interessada em si mesma e na sua aparncia.
"Ela  muito jovem", descobriu-se pensando. "e inocente".
Ao mesmo tempo, para ser honesto, teve de admitir que tinha aproveitado cada momento de seu almoo. No sentira nem um pouco do tdio que ele esperava sentir.
Foi somente quando encontraram dois amigos franceses que ele se deu conta, pelos elogios eloquentes que eles fizeram a Janet, que eles a acharam encantadora.
Quando o duque a apresentou como sua esposa, ficaram espantados.
- No fazia ideia de que fosse casado! - disse um dos homens. - De fato, estvamos falando de Vossa Alteza somente h uma ou duas noites e algum o classificou como 
sendo o solteiro mais elegvel de toda a Gr-Bretanha.
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Agora sou um homem casado - o duque sorriu. - No momento minha mulher e eu estamos aqui em lua-de-mel.
Depois de eles se desmancharem em congratulaes, um dos franceses, cujos olhos impudentes haviam feito Janet sentir-se embaraada, insistiu para que fossem at 
a casa da irm dele a fim de contar-lhe as boas novas.
A irm dele era uma Comtesse e, pelo modo que cumprimentou o duque, olhando-o nos olhos, suas mos demorando nas dele, Janet intuiu que ela havia sido, se ainda 
no era, importante na vida do duque.
A Comtesse era muito graciosa com o chie de uma parisiense e um jeito de se expressar com os olhos, com as mos e com os lbios diferente das pessoas que Janet conhecera 
at ento.
Janet a observava e meditava: seria isto o que o duque queria em algum para julg-la atraente?
Devido  sofisticao da Comtesse, Janet, de repente, sentiu-se muito desajeitada e ignorante, uma colegial que nada sabia do mundo no qual o duque resplandecia 
com tamanho brilho.
O fato de sua madrasta se comportar do mesmo jeito que a Comtesse afligia Janet, fazendo-a pensar que, se era isso o que atraa o duque, ela estava bvia e lamentavelmente 
excluda do grupo.
Quando voltavam da casa da Comtesse, o duque disse:
- Voc est muito quieta. No que est pensando? Janet no respondeu e ele insistiu:
- Quero saber. Acho errado haver segredos entre dois amigos.
Ele falava brincando, mas Janet respondeu:
- Talvez seja errado ser muito sincero. Um homem pode preferir que uma mulher seja misteriosa de forma a chamar sua ateno.
O duque adivinhou por que ela estava falando assim e pegou sua mo entre as dele. Os dedos de Janet j no estavam trmulos.
Mas ele sentiu um pequeno tremor percorr-la e se perguntou se no era porque a estava tocando.
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Ento ele falou:
- Se voc pensa que as maneiras da Comtesse so muito sofisticadas e que voc poderia imit-la, isto seria um grande erro.
- Por qu? - perguntou Janet.
- Porque uma das coisas mais deliciosas em voc  que  natural. Voc no finge, no  misteriosa.
- Mas, talvez - disse Janet -, voc acabe achando esta naturalidade muito enfadonha.
- Importa a voc o que eu possa sentir a seu respeito? perguntou o duque, srio.
- Claro que importa! Se temos que ficar juntos porque somos casados e voc prefere mulheres que se comportam como a Comtesse fez justamente agora, ento eu tentarei, 
mas penso que no terei muito xito.
- Ser um completo desastre - afirmou o duque. - O que eu acho mais interessante em voc, Janet,  a sua naturalidade, seu modo de falar, sem afetao, todas as 
coisas que andam em sua mente e em seu corao.
Janet suspirou de alvio.
- Isto torna as coisas muito mais fceis - disse. - Obrigada por me esclarecer.
- Gostaria de acrescentar - interferiu o duque - que a Comtesse  uma autntica francesa, e eu havia decidido, h muito, que minha mulher, quando tivesse uma, seria 
uma autntica inglesa.
Ela deu um breve riso antes de concluir:
- Sendo como voc fala. percebo que. tenho uma oportunidade.
Enquanto falava, soltou sua mo que estava presa na do duque e, no instante seguinte, j estava rindo de algumas crianas que corriam pelos jardins dos Champs Elyses 
perseguindo bales que se haviam soltado e agora pairavam entre as rvores.
O duque levou Janet a vrios restaurantes que sabia que iam lhe agradar e, invariavelmente, encontrava amigos que se espantavam em saber de seu casamento.
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Depois de vrios dias passados em Paris, apareceu um anncio nos jornais franceses, copiado do ingls.
O duque mostrou a Janet o que estava escrito e ela, durante alguns instantes, manteve-se em silncio. Depois comentou:
- Agora papai e minha madrasta devem estar sabendo onde estamos.
- Tambm acho - replicou o duque. - Por isso poderamos ir mais para o sul e, se voc gostar, pegar de novo o iate em Marselha e voltar para casa por mar.
Janet ficou encantada! Gostava de Paris, mas, ao mesmo tempo, sentia demais a diferena entre ela e as mulheres francesas amigas do duque que encontravam por onde 
fossem.
Uma vez de volta ao iate, ela ficou muito mais  vontade.
Embora nunca lhe tivesse passado pela cabea sentir cime do duque, admitia que gostava de estar sozinha com ele e fazia todos os esforos para falar de coisas que 
o interessassem e nas quais ele pudesse
 instru-la.
A volta atravs da baa de Biscaia foi muito difcil. O movimento contnuo provocou-lhe dor de cabea, de forma que preferiu ir para a cama, ao menos para no ter 
que rolar de um lado ao outro da cabine.
Era tarde da noite quando o duque desceu do convs e, vendo sua luz ainda acesa, entrou em sua cabine.
- Voc est bem? - perguntou.
- Sim - respondeu Janet. - A no ser que me diga que estamos afundando.
- Como ousa insultar meu navio? - replicou o duque rindo. - Est se comportando que  uma maravilha, e o capito e a tripulao esto encantados com ele.
- Sinto-me mais segura na cama - sorriu Janet.
Ao dizer isso  luz romntica de uma lanterna, estava to atraente que o duque sentiu tremer em seus lbios as palavras: "Acho que vou deitar junto de voc".
Percebeu ento que a maneira que ela o olhava era a mesma de uma irm menor, de admirao.
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Em seus olhos no havia a menor coqueteria; ela sorria de seus cabelos despenteados pelo vento e de seu ar desconsolado. com o carinho e talvez a admirao de uma 
colegial por seu irmo mais velho.
O duque observou que, com as comidas excelentes que haviam se alimentado na Frana e a diminuio do temor, as faces de Janet pareciam mais cheias e sua pele resplandecia 
com o brilho da boa sade e tambm seus olhos brilhavam.
com seus cabelos caindo pelos ombros, parecia uma sereia encantando Ulisses para atra-lo para seu reino. Pela primeira vez o duque teve desejo de beij-la e descobrir 
qual seria sua reao.
Quase estendeu as mos em sua direo, mas teve medo de ver seus grandes olhos encherem-se de pavor e de pr a perder o que j era uma amizade calorosa que eliminava 
qualquer embarao.
- Est ansiosa para chegar em casa? - perguntou de repente.
- Ser emocionante voltar ao castelo - declarou Janet -, tenho saudades de montar em seus belos cavalos.
- Faremos longos passeios juntos - disse o duque. Tenho muitas coisas a lhe mostrar. - Houve uma pequena pausa antes de ele acrescentar: - Ao voltarmos para casa, 
teremos uma vida bem diferente da que levvamos em Paris. Por isso precisamos conversar muito.
Janet suspirou.
- Sei que voc  muito requisitado e, naturalmente, ter de ir a Londres para se apresentar no Buckingham Palace e em Marlborough House.
- Sei que voc j sabe de tudo isso - concordou o duqu -, mas precisar tambm enfrentar o fato de que, sendo minha esposa, dever assumir seu lugar.
- Voc prometeu que me ajudaria a no cometer nenhum. erro - falou Janet rapidamente.
- Certamente manterei minha promessa. No deve se esquecer, 
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 porm, que, do ponto de vista da sociedade, ns nos casamos porque estvamos muito apaixonados e este foi o motivo de tanta pressa.
- No sei muito bem - disse Janet lentamente. - Como se pode fingir estar... apaixonado de forma que as pessoas percebam isso?
O duque pensou que a resposta ideal para isso era estar apaixonado e, para ele, fazer amor com sua mulher. Mas achou muito difcil pr isto em palavras. Depois de 
um silncio opressivo declarou:
- Deveremos somente esperar para ver o que acontece. Estou convencido de que, uma vez que estejamos no castelo ou em Londres, faremos a coisa certa por instinto.
Janet parecia preocupada.
- Pode ser fcil para voc - ponderou ela -, mas para mim  muito, muito difcil, porque eu realmente no sei o que seus amigos esperam nem como deverei comportar-me 
quando eles estiverem l.
- Temos ainda trs dias antes de chegar em casa - contemporizou o duque. - Esqueamos por enquanto este problema, e quando o mar estiver mais calmo falaremos disso.
- Esta  uma ideia muito boa - concordou Janet. - Voc deveria ir para a cama. O vento, acima de tudo, cansa muito.
- Isto  bem verdade - concordou o duque.
Mais uma vez pensava como Janet era bonita, que seus. olhos, sua expresso quando lhe sorria eram to jovens e inocentes.
"Se eu a beijar", pensava ele, "deve ser como beijar uma flor ou tocar as ptalas de uma rosa."
Este pensamento fez com que seu corao palpitasse. Neste momento, Janet aconchegou-se entre os travesseiros.
Eu vou dormir - despediu-se ela -, espero que pela manh a tempestade tenha amainado um pouco, porque o barulho do vento e o contnuo ranger da madeira cansam mais 
que qualquer outra coisa.
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- Voc tem razo - concordou mais uma vez o duque - s podemos desejar que mais adiante teremos mares mais calmos.
Levantou-se enquanto falava e se moveu cambaleante pela cabine, at a porta.
Foi difcil passar por ela e, assim que ele a fechou atrs de si, Janet fechou os olhos e iniciou suas oraes.
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CAPTULO VI
Enquanto a carruagem corria em direo do castelo de Wynchester, o duque sentia um grande contentamento por estar de volta  casa.
No se esquecera dos momentos pavorosos que passara ao imaginar que seria obrigado a abandonar o castelo, as terras to queridas, em volta dele, para viver no exterior 
com uma mulher que, sabia, haveria de odiar cada vez mais a cada momento de sua vida de casado.
"Tive sorte! Tive mais sorte do que se possa dizer!", refletia ele, "e estou muito, muito agradecido."
 luz do sol, o castelo parecia mais lindo que nunca, as Janelas falseando suas boas-vindas e seu pendo agitando-se sobre o telhado contra o azul do cu.
Isso tudo o comovia to intensamente que ele disse a Janet:
- Daqui para a frente esta  a sua casa, espero que voc chegue a am-la tanto quanto eu.
-  muito linda - disse Janet com voz insegura -, mas  muito... grande.
Percebeu que ela estava assustada com a ideia de encontrar-se sozinha numa construo to imensa e respondeu alegremente:
- Eu estarei sempre com voc. E no imagine ficar sozinha! Um sem-nmero de parentes famintos e preguiosos esperar que lhes d abrigo e comida de graa.
A este comentrio, Janet deu um breve sorriso e, enquanto se dirigia para a porta da frente, ele sentiu-se aliviado por ela no estar to tensa ou nervosa como ele 
havia temido.
O duque quis retornar para casa dirigindo seus prprios
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cavalos. Por isso tomaram um trem em Folkestone, onde deixaram o iate, para a mais prxima estao.
L estavam esperando o faetonte do duque e dois batedores que os haviam escoltado em sua jornada de regresso.
Ele gostaria que Janet mostrasse o que havia achado da viagem, mas ela no fez nenhum comentrio.
Agora caminhavam dentro do grande salo do castelo e reviam os estandartes pendendo em cada lado da lareira medieval e a escadaria esculpida. Retratos dos antepassados 
do duque ficavam na galeria que encimavam as espadas.
Como chegaram muito tarde, o duque insistiu para que ela tomasse uma pequena taa de champanhe a fim de atenuar o cansao da viagem. Depois conduziu-a para cima 
at o esplndido dormitrio que sempre fora ocupado pelas duquesas de Wynchester.
Sem que ela dissesse nada, soube o quanto admirava o forro pintado, os painis em brocado, cada qual com o quadro apropriado, os mveis franceses.
Os espelhos esculpidos e dourados eram to raros como a cama com dossel, tambm esculpido com cupidos e pombas.
- Sei que voc deve estar cansada depois dessa viagem to longa - falou o duque. - Por isso vista algo mais confortvel, porque no jantaremos no salo, e sim em 
sua sala particular aqui ao lado.
Ento ele a deixou com Mrs. Robertson, a governanta, que j havia desfeito algumas das malas de Janet.
- Estamos muito felizes em dar-lhe as boas-vindas, Vossa Alteza - cumprimentou-a Mrs. Robertson. - Amanh encontrar um monte de presentes esperando no salo de 
baile.
- Presentes? - perguntou Janet.
- Sim, Vossa Alteza, comearam a chegar assim que foi publicado o anncio do casamento nos jornais. Sua Alteza  muito popular, como deve saber.
Janet pensou que todos os presentes deviam ser para o duque. Ficaria surpresa se tivesse um somente para ela. Mas no momento ela no queria pensar em como seria 
a
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recepo por parte dos parentes e dos amigos do duque, mas somente conseguir acostumar-se ao castelo e convencer-se de que era a dona daquilo tudo.
Quando o duque a trouxera de Londres, estava to assustada que no havia observado nada  sua volta, preocupada somente com seu anseio febril de fugir de sua madrasta.
O banho quente e perfumado que Mrs. Robertson lhe havia preparado fez com que seus temores evaporassem.
O duque, como havia prometido, a protegeria, mesmo na Inglaterra, ao alcance de seu pai e sua madrasta.
"Eles agora no podem me tocar", reconfortou-se.
Quase no tinha reparado que Mrs. Robertson vestira nela uma camisola difana num tom muito delicado de azul, e depois um precioso neglig em cetim e renda que combinava 
com a camisola.
Aps arranjar os cabelos de Janet, ela lhe disse:
- Sua Alteza est esperando no quarto ao lado, estou certa de que ele achar Vossa Alteza encantadora.
Olhando-se no espelho, pensou que nunca estivera mais linda, mas no sabia se o duque a acharia comparvel s mulheres glamourosas que o haviam cortejado em Paris.
Agradeceu a Mrs. Robertson e dirigiu-se rapidamente para a porta que a governanta abrira para ela.
O duque a esperava em frente da lareira da sala de estar e Janet, assim que entrou, ficou maravilhada.
Todo o quarto estava decorado com flores brancas, e grandes vasos cheios de flores de aucena descansavam em cada lado da lareira sobre mesinhas de canto esculpidas 
em dourado.
Sobre todos os quadros havia festes de flores e uma quantidade de orqudeas-estrelas cobria a parte superior da lareira. Janet juntou as mos e exclamou:
- Que lindo! Voc preparou isto para. mim?
- Para minha esposa - retificou o duque -, e tenho tambm um presente de npcias para voc, Janet.
Pegou na mesinha ao lado uma caixa revestida de veludo azul
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e abriu-a. Continha um maravilhoso colar de diamantes confeccionados em forma de flor.
- Permite que o coloque em voc? - perguntou.
-  maravilhoso, simplesmente maravilhoso! - exclamou Janet. - Mas voc no deveria ter-me dado... um presente to valioso.
- Percebi em Paris - explicou o duque - que voc no tinha nenhuma jia. Poderia, naturalmente, ter trazido algumas, das jias de famlia para voc usar, mas este 
 somente seu, pertence somente a voc.
Dizendo isso enlaou seu pescoo com o colar e apertou o fecho em sua nuca.
Seus dedos, tocando a pele nua, transmitiram-lhe um estranho tremor, com uma vibrao que percorreu seu corpo todo.
Aconteceu to rapidamente que j havia desaparecido antes mesmo de ela se aperceber.
- Tenho um outro presente que deveria ter-lhe dado assim que nos casamos, mas queria compr-lo do meu joalheiro aqui em Londres que conhece meu gosto  perfeio.
Enquanto falava, pegou outra caixinha muito menor que Janet no havia visto e tirou dela um anel de brilhantes.
- Este  seu anel de noivado - pareceu desculpar-se. - Espero que, quando voc o usar, esquea que no tivemos um verdadeiro noivado.
Sorria enquanto colocava o anel em seu dedo, mas, ao fitar-lhe o rosto, achou-a preocupada.
- Por que est preocupada? - perguntou. - Esperava que ficasse feliz com os presentes.
- Eles so maravilhosos! - exclamou Janet. - Mas ao mesmo tempo sinto que  errado que voc me d coisas to valiosas.
- Errado? - surpreendeu-se o duque.
- Explico, estou embaraada com sua generosidade - disse Janet -, porque no tenho nada com que retribuir.
Durante o silncio que se seguiu, o duque pensava se deveria
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dizer o que ela poderia dar-lhe em troca. Mas temia que ainda fosse muito cedo.
Enquanto ele hesitava, a porta abriu-se e os empregados entraram com o jantar.
Dois criados transportaram primeiro uma pequena mesa j aparelhada, seguidos pelo mordomo com o champanhe. Novamente o duque insistiu para que Janet bebesse um pouco.
Explicou-lhe que lhe faria bem e ajudaria a superar o cansao, mas ela percebeu que o motivo real era afastar dela seu temor ao castelo e  sua volta  Inglaterra.
Para divertir Janet, no momento de sentar-se  mesa ele conversou da mesma maneira que fazia quando estavam em Paris.
O duque falava de sua casa, das travessuras em que se metera quando menino, dos vrios lugares secretos no jardim e dos locais que desejava mostrar-lhe porque ele 
os havia tornado sua propriedade exclusiva.
Falou tambm dos velhos empregados que ela haveria de encontrar e dos cavalos que esperava que ela cavalgasse.
Tudo isso lhe pareceu to fascinante que Janet o escutava com os olhos brilhantes e uma felicidade transparente em seu olhar, que a tornavam bem diferente da mocinha 
assustada que ele trouxera da primeira vez ao castelo e que lhe havia fornecido uma via de escape para a armadilha de sua madrasta.
Complementaram seu jantar com a sobremesa que consistia em pssegos enormes e uvas da estufa do duque, os quais pareciam a Janet como smbolos da perfeio que encontrava 
em tudo que lhe dizia respeito.
Neste momento chegou Jackson, que se aproximou da mesa com um frasco na mo.
- Porto, Vossa Alteza? - perguntou ele. O duque meneou a cabea.
- No, obrigado, Jackson. Comi um excelente jantar e quando terminar minha taa de champanhe no vou querer nada mais.
- Desculpe, milorde - insistiu Jackson -, mas este Porto  um presente de npcias especial que foi entregue logo aps
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Vossa Alteza ter partido para a Frana. Recebi instrues de servi-lo a Vossa Alteza assim que voltasse, para comemorar sua volta e o casamento.
O duque pareceu interessado.
- Um pensamento muito amvel - disse ele, curioso. Quem deu o presente?
Houve uma pequena pausa antes de Jackson responder:
- Fiz a mesma pergunta, Vossa Alteza, e me foi respondido que era por parte de uma pessoa que admirava enormement Vossa Alteza e que desejava apresentar-lhe seus 
votos de felicidade.
- E o nome? - insistiu o duque.
- O grumete que trouxe o Porto no quis dizer-me replicou Jackson -, mas acontece que eu reconheci a libr.
O duque sorriu.
- Voc sempre teve olho agudo, Jackson! Quem queria fazer tanto mistrio?
- A libr, milorde, era aquela de lorde Brandon. Houve uma pequena pausa e Jackson, pensando que a resposta do duque seria agora afirmativa, encheu, o copo de vinho 
que estava ao lado dele com o porto, pousou a garrafa sobre a mesa e saiu.
Supondo que devia tratar-se de uma oferta de paz por partdo pai de Janet, o duque levantou o copo de Porto.
J estava levando o copo aos lbios, quando Janet gritou
- No! No! Por favor! pediu ela. - No beba isso - Estava to agitada em sua splica que o duque a olhou con
surpresa.
- Por que no? - perguntou ele.
- Porque eu sinto. eu sei. que isto  perigoso. Tenho certeza de que no foi papai quem lhe enviou o Porto, foi minha madrasta.
- Voc acha que isto me poria doente? - perguntou o duque com um aceno de ironia.
- Sim - disse Janet quase gritando. - Isto poderia mat-lo.
O duque olhou-a assombrado e colocou o copo na mesa enquanto indagava:
- Por que voc diz isso? Eu no acredito que, por mais furiosa que sua madrasta pudesse estar com voc e comigo, ela se arriscaria a ser acusada de assassinato.
Janet pensou um pouco antes de falar:
- Quero contar-lhe algo muito esquisito que aconteceu no primeiro dia que passei em casa, de regresso do colgio.
O duque ps-se a ouvir enquanto ela continuava num murmrio:
- Papai e minha madrasta estavam no campo e eu fui direto para l. Encontrei a maioria dos velhos servidores que estavam na casa quando eu partira, e eles ficaram 
bem felizes de ver-me de volta. Havia um s homem novo.
Fez uma pausa antes de continuar:
- Ele era o nico criado que, percebi isso logo que cheguei, estava nas boas graas de minha madrasta. Ela exaltava Henry, era este seu nome, e pedia-lhe para fazer 
coisas para ela. Fazia tanta cena em torno dele que me pareceu bastante incomum e pouco digno.
Interrompeu-se, torcendo as mos:
- Havia tambm uma nova arrumadeira que me fora destinada. mily era uma moa nova, graciosa e atraente, e muito nervosa. Por isso fiz algumas perguntas a ela e 
que me respondeu que acabava de arranjar emprego na casa. Havia sido trazida por Henry, pois vinham do mesmo povoado.
- Na manh seguinte, quando estava ajudando a vestir-me, mily contou-me, em segredo, como se no pudesse continuar a guardar isso por si, que ela e Henry estavam 
noivos.
- Nunca estive to feliz - disse ela -, com exceo de que Sua Senhoria parece estar tomada de antipatia por mim. tenho o pressentimento de que no me deixar ficar 
aqui.
Eu estava penalizada com a moa - continuou Janet -, Porque sabia muito bem que, se minha madrasta tivesse antipatia Por ela, no haveria salvao.
O duque escutava, mas ao mesmo tempo pensava que relao
isso podia ter com o Porto que Janet no quisera que ele bebesse.
Depois de uma pausa Janet continuou:
- Um dia entrei inesperadamente na sala de estar e encontrei minha madrasta discutindo com Henry. Ambos falavam em voz baixa, de forma que eu no pude ouvir o que 
diziam.
- Quando eu apareci minha madrasta saiu, mas percebi que seus olhos faiscavam e, pela linha dura de sua boca, que ela estava com raiva. Henry, com o rosto vermelho 
e evidentemente transtornado, fugiu do aposento.
- Que idade tinha o homem? - interrompeu o duque.
- Entre vinte e cinco e vinte e seis anos, penso - respondeu Janet. - Ele tinha boa aparncia e era mais refinado que a maioria dos criados.
- Continue - pediu o duque.
- Naquele dia no vi mily at de noite quando subi para me vestir para o jantar. Assim que a vi, percebi que havia chorado.
- O que h, Emily? - perguntei.
-  Sua Senhoria, miss Janet - ela me respondeu. - Ela esteve se queixando de mim para a governanta, e Henry'pensa, assim como eu, que serei despedida quando nos 
pagarem no fim da semana.
- Sinto muito, mily - disse eu -, gostaria de poder ajudar.
- Ningum pode me ajudar - respondeu mily, triste.
- Estava to feliz de vir aqui para ficar com Henry e fiz tudo que pude, juro que fiz.
- Parecia to pattica dizendo isso - comoveu-se Janet
- que pus meus braos em volta dela dizendo:
- Tenha coragem, Emily, talvez voc tenha uma outra oportunidade.
- Enquanto eu falava - continuou ela - a porta do meu quarto abriu-se e minha madrasta entrou.
- Voc est aqui, mily! - exclamou ela.
sin?
- Senti mily enrijecer-se e afastar-se de mim, fazendo uma pequena cortesia  minha madrasta.
Estava justamente dizendo que voc parecia esgotada, muito cansada - continuou minha madrasta. Eu a olhei surpresa.
- Tambm mily estava surpresa e falou:
- Fiz o melhor que pude, milady, juro que fiz.
- Estou certa de que voc fez - disse minha madrasta, e eu sei que h muito trabalho quando temos hspedes e, naturalmente, ainda no se acostumou com a casa.
- De novo - reforou Janet - ela estava to gentil que eu no conseguia acreditar.
- Ento minha madrasta continuou:
- mily, eu trouxe um tnico que a far sentir-se muito melhor. Eu o tomo sempre e me faz sentir no topo do mundo. Tome um copo pequeno cheio dele quando for para 
a cama e voc se sentir muito mais forte e poder continuar a trabalhar duro como sei que voc quer.
- Enquanto dizia isso - continuou Janet -, ela ps nas mos de mily um frasco de remdio e deixou o quarto dizendo para apressar-se e no me atrasar para o jantar.
- Voc viu, mily - disse eu, contente -, no era to ruim como voc esperava e eu nunca vi minha madrasta to gentil.
- Muito gentil, miss - concordou mily. - vou fazer exatamente como ela disse e talvez tudo melhore.
Janet calou-se e depois de pouco tempo o duque perguntou:
- O que aconteceu?
- De manh - Janet disse de um flego -, mily estava. morta.
- Morta! - exclamou o duque. - No acredito.
- Mas  verdade. Foi encontrada morta na cama, e o doutor, quando veio, disse que ela havia morrido de um ataque do corao.
- Ele no suspeitou de nada?
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- No! Ele foi muito categrico dizendo que seu corao estava doente e que devia ter morrido enquanto dormia.
O duque manteve-se calado por um momento e depois indagou:
- E se esta fosse a verdade?
- Perguntei para a minha madrasta - explicou Janet -, porque no pude me conter:
- No acha que talvez o tnico que voc deu a Emily era muito forte e atacou seu corao?
- O que ela respondeu? -quis saber o duque.
- Minha madrasta me olhou de uma maneira que sempre me apavorou e respondeu:
- Que tnico? No sei do que voc est falando!
- O tnico que deu a mily quando veio ao meu quarto
- respondi.
- Acho que voc est ficando louca! - retorquiu minha madrasta. - No teria dado nada quela idiota, a no ser seu aviso prvio. Se voc quer saber, morrer foi a 
melhor coisa que ela podia fazer. Nos livramos dela.
- Ela saiu do quarto enquanto falava, mas eu penso que Henry sabia a verdade.
- Por que voc acha isso? - perguntou o duque.
- Porque ele partiu sem falar nada para ningum. O mordomo comunicou a papai que Henry se fora. Papai pensou que fosse por causa da dor pela perda de mily. Mas 
eu tenho certeza de que ele se foi porque tinha muito medo de acusar minha madrasta de ser uma assassina, porque foi isto que ela foi.
O duque levou a mo at a testa.
- Eu no consigo acreditar que o que voc me disse seja verdadeiro!
 a pura verdade, posso lhe assegurar - garantiu Janet.
- Assim, por favor, no loque naquele Porto e pea a jackson para jog-lo fora.
- Depois do que voc me contou - concordou o duque -, mesmo que eu no possa realmente acreditar que sua madrasta seja to diablica, sem dvida darei minhas ordens 
a Jackson.
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Tocou o sininho e, quando Jackson entrou na sala, ele disse:
- Pode levar embora a mesa, Jackson, o Porto est com gosto de rolha ou talvez tenha sido mal conservado. Jogue-o fora mesmo e que ningum o beba, compreendeu?
- Entendi, Vossa Alteza - disse Jackson. - Cuidarei que ningum se aproxime dele.
Ele levou a garrafa e os criados levaram a mesa da sala. Quando fecharam a porta, Janet emitiu um suspiro de alvio e foi at a Janela.
O sol estava mergulhando num fulgor de glria por trs das rvores do parque. O ltimo bruxuleio de vermelho e ouro no cu refletia-se no lago e em cima dele a primeira 
estrela da noite tremeluzia fracamente.
Havia muita quietude e beleza.
Percebendo Janet transtornada pelo ocorrido no jantar, o duque declarou:
- Amanh atravessaremos o parque e levarei voc at um lugar plano onde poderemos cavalgar.
- Sei que vou gostar - concordou Janet. - Mas j faz alguns anos que no ando a cavalo; espero no desiludi-lo como amazona.
- Eu a ensinarei a montar - entusiasmou-se o duque. Assim como quero, lhe ensinar uma poro de coisas, e lhe garanto, Janet, que me agradar muito ter uma aluna 
to aplicada e inteligente.
- Ser muito emocionante para mim - disse Janet. Prometa-me que, se eu lhe cansar e se voc pensar que sou um estorvo, me dir e talvez possamos encontrar outra 
pessoa para me ensinar.
- Esta  uma promessa que posso fazer tranquilamente brincou o duque -, porque sei que isso no vai acontecer nunca.
Fez uma pausa e depois continuou:
- Entre as muitas coisas diferentes que fiz em minha vida, pelo que me lembro, nunca ensinei nada a ningum, com exceo dos meus cavalarios quando estive por um 
breve
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perodo no exrcito e quando em Eton tive um calouro como atendente e lhe ensinei seus deveres.
- Espero ser to brilhante quanto eles - sorriu Janet, Ele preocupou-se:
Meu nico cuidado  ter de polir bem meu crebro para poder ficar  altura de voc numa quantidade de argumentos. Mas, ao menos, terei a satisfao de comear como 
professor.
- Voc ser sempre isso - murmurou Janet. Enquanto falava, ergueu o olhar para fitar o duque e seus
olhos ficaram presos pela expresso que viu nos dele.
No podia saber como estava linda na luz que esmorecia ou de como o colar resplandecente de diamantes em volta de seu pescoo acentuava a brancura de sua pele e 
sugeria ao duque a tepidez de sua ctis.
Sentiu faltar-lhe a respirao e, neste momento, atrs deles a porta da sala de estar abriu-se de chofre e Jackson exclamou:
- Por favor, Vossa Alteza, venha logo!
- O que h? - perguntou ele.
Mas, como ele nunca tinha visto Jackson perder sua calma pontifical, atravessou correndo a sala e seguindo o velho mordomo fechou a porta atrs de si.
Janet ficou a olhar a porta por onde haviam sado e com um murmrio de pavor cobriu seu rosto com as mos.
Fora, no corredor, o duque perguntou:
- O que h, Jackson? Por que toda essa confuso?
- Quero que Vossa Alteza venha comigo - respondeu Jackson. - Nunca vi nada igual! Nunca, durante toda a minha vida!
Ele apressou-se  frente do duque que o seguia pela pequena copa que, na outra extremidade do corredor, servia de apoio quando a comida era servida no andar de cima.
Quando entraram, o duque viu um dos criados estendido no cho e o outro, muito plido, inclinado sobre ele.
Ele endireitou-se ao ver o duque e, quando este ajoelhou-se para examinar o moo prostrado, Jackson contou: 
- Deixei James aqui. Vossa Alteza, somente por dois minutos,
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enquanto eu ia com Arthur para cuidar que fosse trazido para a cozinha o que sobrara dos pratos servidos no jantar.
O duque sabia ser este o procedimento normal e quase no escutava.
Abriu o colete do criado e inseriu sua mo sobre seu peito. O corao no batia e no havia dvida de que o homem tinha morrido.
O duque procurou o pulso para assegurar-se, mas no o encontrou. Ento perguntou com uma voz que no parecia a dele:
- Como aconteceu?
- No fao a menor ideia, Vossa Alteza! - replicou Jackson. - Num momento ele estava aqui empilhando os pratos, e quando Arthur e eu voltamos alguns segundos mais 
tarde ele estava estendido no cho como est agora. morto!
Foi ento que o duque viu um copo de vinho perto do lambril.
Reconheceu-o como sendo aquele que estava na sua mesa de jantar e que Jackson enchera com o Porto. Deduziu que devia ter rolado para l da mo do criado quando este 
havia cado.
Ficando de p, inspecionou a copa  sua volta e viu num canto da pia a garrafa que Jackson trouxera para a mesa.
Sabia que seria errado chamar a ateno para ela, por isso, ordenou:
- Jackson, eu sugiro que voc v at o estbulo e pea a um grumete para ir at o povoado avisar ao Dr. Graham para vir aqui o mais cedo possvel.
Depois, dirigindo-se para o criado:
- E voc, Arthur, pea a Mrs. Robertson um lenol para cobrir este pobre rapaz e tambm um travesseiro para sua cabea. No pode ser mexido para mais nada. Voc 
entendeu?
Jackson e o criado apressaram-se em sair e o duque, depois de tirar a rolha da garrafa, despejou seu contedo dentro da pia.
Enquanto fazia isso, refletia que, se no fosse por Janet, ele agora estaria no cho em lugar do criado.
Esperou at Mrs. Robertson chegar num estado de grande agitao.
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Aps instru-la para que esperasse a chegada do doutor e no movesse o corpo do rapaz, retornou lentamente para a sala de estar, refletindo no caminho sobre a maneira 
de contar o ocorrido para Janet.
Isto iria perturb-la profundamente. Que coisa diablica acontecer esta tragdia na primeira noite de sua volta  casa, quando ele queria que ela se sentisse feliz.
Abriu a porta da sala de estar e viu que Janet havia permanecido ao lado da Janela como quando a deixara.
A escurido havia descido, mas na penumbra ainda podia
ver seu rosto.
Antes que ele pudesse falar, antes que pudesse pr em palavras o que tinha a lhe dizer, ela gritou e atravessou correndo a sala para jogar-se em seus braos.
- Ela quer mat-lo! Eu sei que ela quer mat-lo! j pensou se voc tivesse morrido? Oh, Deus, como poderia isto ter acontecido?
Suas palavras eram desconexas porque falava chorando.
Quando a abraou, ela levantou o olhar para fit-lo. Na luz do sol poente, com seus olhos imensos marejados- de lgrimas, os lbios entreabertos, todo seu corpo 
trmulo contra o seu, nunca tinha visto criatura mais linda.
Sem pensar, sem refletir sobre a maneira de confort-la, seus lbios desceram sobre os dela e a fizeram cativa.
Por um momento, sentiu seu corpo tornar-se tenso pela surpresa, mas ento ela pareceu fundir-se de encontro a ele como se ele fosse toda a proteo e todo o conforto 
de que necessitava.
Seus lbios eram exatamente como ele esperava, ternos, jovens e inocentes. Segurou-a mais perto' de si e, enquanto a beijava, sentiu nascer em seu corao sensaes 
nunca experimentadas.
No era a violenta paixo ardente que conhecera com tantas outras mulheres e que acabava to rapidamente como comeava.
Isto era diferente. To diferente que por um momento no pde acreditar que o sentimento que Janet lhe inspirava fosse amor.
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Ento soube que, se isto era amor, desde h muito tempo ele a tinha amado.
Havia se convencido de que, por causa da juventude dela, embora ela no o atrasse ou divertisse como fizeram mulheres mais sofisticadas no passado, ele a teria 
protegido e cuidado dela com todo o respeito.
Agora sabia que queria muito mais.
Ele queria seu amor. Queria saber que poderia fazer singir nela o mesmo arrebatamento inenarrvel que ela lhe provocava.
No era um simples desejo fsico. Mesmo sendo ela to encantadora, terna e inocente, ele a queria como mulher.
Mas ao mesmo tempo sabia que o que ela despertava nele, que fazia vibrar e palpitar todo seu ser de uma forma nunca experimentada, era um xtase inteiramente espiritual.
Este sentimento revelava-lhe que havia encontrado em janet o que sempre estivera faltando nas outras mulheres que ele havia amado.
As emoes que ele imaginava ter despertado nelas eram completamente superficiais, o desejo natural de um corpo por outro corpo e nada mais.
Sentia um desejo quase intolervel no somente pelo corpo de Janet, que j parecia fazer parte do seu, mas tambm por seu corao e sua alma.
Sentindo faltar-lhe a respirao, levantou a cabea por um momento. Todo seu ser vibrava  procura dela e, como ela instintivamente se aproximava mais dele com os 
olhos brilhantes, percebeu que o mesmo acontecia com ela.
- Eu te amo - disse ele com voz profunda e trmula. Eu te amo, Janet adorada.
Ele beijava-a sem parar, longos beijos exigentes e apaixonados que roubavam o corao de Janet e o faziam dele somente.
Ela nunca imaginara, nem suspeitara, que pudesse existir algo to maravilhoso como os beijos do marido.
Percebia que instintivamente era isso que queria dele, mas nunca lhe tinha ocorrido a ideia que ele pudesse am-la.
A felicidade que haviam encontrado juntos em Paris e o fato
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de sentir-se a salvo e protegida depois de voltar para a Inglaterra tinham despertado seu amor por ele, sem que soubesse.
"Como posso ter sido to boba a ponto de no suspeitar que o que sentia era amor?", ela se perguntava. "Mas como poderia ter imaginado que o amor era assim? "
Sentiu os lbios dele tornarem-se mais insistentes, mais exigentes, e uma sensao muito estranha e excitante disparou dentro dela.
Desejava dar-lhe tudo o que ele queria, mesmo no sabendo ao certo o que era. Sabia somente que se encontrava num paraso onde. tudo era intenso e emocionante.
"Se eu morresse neste momento, j teria conhecido a perfeio", pensou ela.
Mas no queria morrer, queria viver para ficar com o homem amado.
Queria que ele a beijasse muito e continuasse junto dela, ainda mais juntos do que estavam neste momento.
Ele a beijou at ela alcanar os limites de uma felicidade quase insuportvel; com um pequeno murmrio ela escondeu o rosto no pescoo dele.
- Minha querida, minha doura - disse o duque, olhando-a com paixo. - Como  possvel que voc me faa sentir assim? Como  possvel que eu te ame como no imaginava 
poder amar algum?
- Eu tambm te amo - sussurrou Janet. - J faz muito tempo que estou te amando, s que no sabia que era amor.
- E eu te adoro - respondeu o duque. - Querida, mais uma vez voc me salvou de uma cilada preparada por sua madrasta.
Janet levantou o rosto para olh-lo. Seus olhos arregalaramse assustados quando ele declarou:
- O Porto estava envenenado!
- Como voc soube disso?
- Porque matou um dos criados que bebeu do copo que Jackson preparara para mim e que voc me impediu de tomar.
- Oh, no! - horrorizou-se Janet.
No h nada que se possa fazer - disse o duque. - Mas, para evitar um escndalo, espero somente que o doutor pense que foi um ataque de corao.
Por um momento, Janet fechou os olhos e depois considerou:
- Poderia ter sido voc e eu quereria ter morrido tambm. Como podemos viver sabendo que minha madrasta tentar de novo?
O duque estreitou-a to forte em seus braos que ela achou difcil respirar enquanto dizia:
- Estou apavorada! Oh, meu querido, maravilhoso Hugo, tenho medo de perder voc!
Sua voz calou-se quando encostou o rosto contra o ombro dele.
O duque levantou-a em seus braos e a transportou atravs da sala at o quarto.
Sentou-a na cama e retirou primeiro seu colar de brilhantes, jogando-o descuidadamente sobre a mesinha-de-cabeceira, depois despiu-lhe o nglig e, enquanto ela 
estava ainda chorando, deitou-a na cama.
Murmurou que no queria que ele a deixasse, mas, como ainda estava chorando, no conseguiu faz-lo entender.
O duque foi at a porta, trancou-a, e alguns segundos mais tarde escorregavam para dentro da cama e a atraa gentilmente, para seus braos.
Ela teve um pequeno sobressalto de surpresa, mas no disse nada. O duque percebeu que no estava mais chorando.
Apertou-a bem perto dele e comeou a explicar:
- Agora escute, querida, precisamos ser muito observadores e sensveis. Conseguimos nos salvar, ou melhor, voc me salvou. No podemos permitir que sua madrasta 
nos vena ou que torne nossa vida o inferno que ela pretende,
- Ela quer mat-lo - sussurrou Janet. - Ento eu estaria de volta, em suas garras, e ela poder punir-me.
- Vivo ou morto - disse o duque -, tomarei as providncias para que voc no dependa de seu pai ou de sua madrasta. Mas isto  inconsequente, porque pretendo viver 
e quero que minha adorvel esposa seja muito feliz comigo. Assim, vamos parar de pensar por um momento no esquema diablico de sua madrasta, para pensarmos no fato 
de que ns nos encontramos e que eu te amo.
- Realmente voc me ama? Voc me ama, Hugo?
- Eu te amo como nunca amei ningum em toda a minha vida.
Para convenc-la, ele a atraiu um pouco mais para perto, enquanto continuava:
- No escondo que tive muitas mulheres, mas o que sentia por elas era a paixo natural que um ser normal sente por uma linda mulher que demonstra ser atrada por 
ele.
Sentiu Janet arrepiar como se estivesse chocada, mas continuou:
- Mas as emoes que elas despertavam em mim eram muito diferentes dos sentimentos que eu tenho por voc.
- Como podem ser diferentes? - quis saber Janet.
 difcil explicar com palavras - respondeu o duque.
- No comeo, eu queria somente proteg-la e salv-la. Depois, voc se insinuou em meu corao e eu me dei conta de que seria impossvel pensar em minha vida sem 
voc a meu lado, sem sua ajuda, estimulando minha mente e sendo minha inspirao.
Seus lbios roaram a testa dela antes de continuar:
- Esta  uma coisa que nunca disse a outra mulher, porque todas as outras no representavam nada mais que um prazer e uma diverso completamente dispensveis.
com a face de encontro  dela, falou com voz profunda:
- No desejo viver sem voc. Quero-a comigo dia e noite e, mesmo que voc no esteja presente, estar sempre em meus pensamentos.
Acariciando suas faces com as mos, Janet declarou:
- No consigo acreditar no que est me dizendo. Eu te amo tanto que voc enche o meu mundo, o mar e. o cu! H somente voc... e voc   to maravilhoso de tantas 
formas que.
quando voltamos para a Inglaterra, pensei no ter mais medo de... minha madrasta.
- No deve assustar-se com ela - protestou o duque. Ela  um demnio que ns teremos de combater. Um drago que eu, como seu defensor, tornado forte por seu amor, 
terei de destruir.
Havia falado como se desafiasse o prprio demnio, e por um momento Janet sentiu uma estranha exaltao agitar todo seu ser como se ouvisse o alerta do toque do 
clarim. Mas refletiu:
- Como poderemos estar sempre em guarda? O que ela poder fazer para te destruir e como poderemos prever isto?
O duque suspirou antes de dizer:
- O amor que sinto por voc me inspirar a resposta, querida. O fato  que eu estou convencido de que Deus, que cuidou de ns at agora, no nos faltar no futuro. 
Devemos ter f. Precisamos acreditar numa fora superior  nossa e penso que encontraremos o caminho para sair dessa confuso.
Janet exclamou com admirao:
- Somente voc poderia dizer algo to bonito! Somente voc poderia ser to diferente do esperado. Oh, Hugo, eu te amo, eu te amo. Quero ficar com voc. Quero ser 
sua esposa. Quero dar-lhe filhos e filhas para que vivam nesse maravilhoso castelo. Tenho somente medo de pedir demais.
- O que est pedindo  o que eu sonho viver - concordou o duque. - Queira Deus que eu o consiga.
Assim falando, ele beijou Janet, e por um momento seus lbios no foram apaixonados nem exigentes. Foi um beijo de dedicao. O beijo de um homem que dedicava sua 
alma a uma cruzada contra o demnio.
Sentindo-a mover-se perto dele, e a maciez daquele corpo feminino contra o seu, ele de novo se agitou com a estranha sensao de um amor diferente.
- Eu te amo, minha preciosa - disse ele. - No poderia suportar fazer qualquer coisa que a assuste mais do que voc j est assustada.
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- Voc nunca poder assustar-me - explicou Janet. - Eu somente tenho medo por voc! Eu te amo como o ar que respiro, e cada vez que voc me beija  como se fosse 
transportada para um paraso onde nosso amor  divino.
No conseguiu acabar de falar porque os lbios do duque estavam sobre os dela e suas mos estavam acariciando-a, seus lbios mantendo-a prisioneira e o corao dele 
batendo contra o seu.
Ele carregou-a at o cu e f-la tocar as estrelas. Quando ela sentiu-se iluminada por sua luz, soube que a mesma luz o iluminava tambm, e ento tornaram-se um 
s.
Juntos haviam encontrado o amor que apraz a Deus, e contra o qual nenhum demnio pode lutar.
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CAPTULO VII
O duque acordou com uma sensao de total felicidade.
Durante alguns momentos permaneceu deitado de olhos fechados, e quando os abriu pde perceber que ainda era muito cedo, pois o sol estava apenas comeando a aparecer 
dos lados das cortinas.
Virou-se para contemplar Janet, que, com os cabelos espalhados sobre o travesseiro e os clios escuros contrastando com as faces plidas, parecia muito linda, jovem 
e vulnervel.
"Cuidarei dela e a protegerei pelo resto de minha vida", pensou ele.
Ento, como se uma nuvem preta ofuscasse o sol, ele lembrou-se de Olive.
Silenciosamente, escorregou para fora da cama e deixou o quarto sem acordar sua esposa.
Queria ficar sozinho para pensar e planejar, se fosse possvel, o que deveria fazer para proteger a ambos.
Vestiu-se rapidamente sem a ajuda de seu criado e desceu para o trreo, onde as empregadas estavam iniciando seus servios, e saiu caminhando at os estbulos.
O cavalario sonolento, que surgiu bocejando de uma das baias, despertou de todo quando viu seu dono e correu a atrelar um dos cavalos mais rpidos.
O duque partiu, cavalgando pelo parque, sentindo o vento frio em seu rosto, sempre pensando no que poderia fazer para proteger-se e a Janet.
J havia cavalgado quase uma hora, quando resolveu voltar para casa e, dirigindo-se atravs de um bosque para os limites do parque, encontrou um pequeno acampamento 
de ciganos.
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Eram os mesmos ciganos que vinham todos os anos ao castelo e tinham sua permisso para acampar onde quisessem.
Quando o duque apareceu, eles se puseram alerta e dirigiram-lhe um olhar bastante hostil, que era a forma de eles receberem os estranhos.
Assim que perceberam quem era, seus rostos abriram-se em sorrisos.
O duque se aproximou e viu com interesse que no centro do crculo formado por suas carroas havia o mais magnfico garanho que ele j tivesse visto.
Totalmente branco, o cavalo postava-se orgulhosamente com o pescoo arqueado de um legtimo animal de sangue rabe.
Quando se aproximou, o chefe dos ciganos dirigiu-se a ele dizendo:
- Bom-dia, milorde. Outra vez somos gratos por sua hospitalidade.
-  bom v-lo, Buckland.  um belo animal esse que voc tem a.
- Muito bom para ver, milorde - replicou o chefe -, mas estou pensando em como destruir esse animal.
- Destru-lo! - exclamou o duque. - O que voc quer dizer com isso?
- Quero dizer, milorde, que este cavalo  cria do demnio, por isso no pode continuar vivendo.
O duque estava to interessado no animal que desmontou do seu cavalo entregando-o a um menino cigano para segurar e dirigiu-se para o garanho.
Em verdade, nunca tinha visto um animal mais fino nem mais esplndido, e quando bateu em seu pescoo pareceu nem perceber, continuou em sua postura orgulhosa, completamente 
indiferente ao que acontecia  volta dele.
- Pelo amor de Deus! Por que voc quer destruir uma criatura to soberba? - perguntou o duque.
-  um assassino, milorde - replicou com simplicidade o cigano. - Quando o comprei me avisaram que ele j havia
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matado trs homens e estropiado vrios outros. Mas, milorde, eu no acreditei.
- Por certo, ele s precisa de melhor treino - disse o duque.
- No, milorde, nada se pode fazer com um animal quando tem o temperamento do prprio demo, como este! Meu filho montou e quase perdeu a vida. Outro nosso rapaz 
quebrou a perna, sorte no quebrar o pescoo!
-  difcil acreditar! - exclamou o duque.
- Estou dizendo, milorde,  o prprio demo que manda nele.
- Como se comporta ele?
- Quando algum monta nele, milorde, ele se comporta bem, ento, de repente, enlouquece sem razo alguma. Nenhum ser
humano consegue continuar montado nele quando ele tem esta espcie de fria.  perigoso conserv-lo, mas, como acabei de "': dizer, nenhum outro homem vai morrer 
por causa dele.
- Eu entendo - disse o duque.
Em sua mente conservava a lembrana de ter ouvido falar- de garanhes que se portavam exatamente como esse, que nenhum tipo de treino conseguia domar, especialmente 
depois de terem chegado  maturidade.
Ento, quando j estava indo embora, no querendo presenciar a morte de algo to esplndido, lhe ocorreu uma ideia.
Era como se a fora de que havia falado Janet o estivesse guiando  ajudando.
Lentamente, porque ainda estava planejando algo, disse:
- Eu vou comprar este cavalo de voc, Buckland. O cigano meneou a cabea.
- No, milorde, depois de toda sua gentileza, no desejo saber que fui o instrumento de sua morte ou desgraa.
- Obrigado por pensar em mim - falou o duque, tranquilo -, mas no vou cavalgar eu mesmo este cavalo, lhe asseguro. vou envi-lo para algum em Londres que se interessava 
por ele.
- Ento  diferente, milorde - respondeu o cigano.
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- H somente uma coisa que quero pedir-lhe: - continuou o duque - que um dos seus rapazes o leve at o lugar em Londres onde quero que fique. Naturalmente pagarei 
pelo servio.
O cigano pensou um pouco no assunto e depois concordou.
- Luke pode lev-lo sem perigo, se o conduzir com uma rdea longa que poder soltar se ele tiver um de seus repentes.
- Exatamente - consentiu o duque. - vou direto para casa escrever uma carta que ser entregue junto com o garanho e trarei tambm cinquenta libras que pagarei por 
ele.
Viu os olhos do cigano brilharem, pensando que era muito dinheiro por um cavalo que ele estava prestes a eliminar.
O duque montou em seu cavalo e voltou rapidamente para o castelo.
Quando chegou  porta da frente, um cigano estava esperando-o e o duque avisou para no levar o cavalo para as cocheiras.
Em seguida, subiu correndo at o escritrio e sentou-se em sua escrivaninha e j sabia, como se possudo -por uma guia externa, o que escreveria para Olive.
Enquanto estava falando com o cigano, se lembrara que no dia seguinte ela deveria comparecer a um desfile suntuoso em Hyde Park que seria realizado em comemorao 
ao aniversrio da rainha.
Pegou a caneta e as palavras foram fluindo com naturalidade. "Minha querida Olive:
Minha mulher e eu ficamos profundamente comovidos quando, na noite passada, encontramos seu presente muito especial a esperar por ns. Era ento muito tarde para 
degust-lo, mas estou certo de que hoje poderemos beb-lo  nossa felicidade futura, como  de seu desejo, e  sua tambm. Sinto que um presente merece outro presente, 
por isso estou lhe enviando um cavalo, que, quando voc o vir, sei que vai desejar cavalgar amanh mesmo, quando comparecer  comemorao do aniversrio de Sua 
Majestade, e. Confidencialmente,
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posso dizer que ningum parecer mais lindo sobre um garanho que se afigura como criado especialmente para voc.
Mais uma vez, meu obrigado por seu gentil pensamento.
com meus respeitos
HUGO
No se incomodou em reler a carta, sentindo como se cada palavra tivesse sido citada  sua mente.
Colocou-a num envelope endereado a lady Brandon e o inseriu num envelope maior que remeteu para:
"Miss Smith A/C de Lady Brandon Brandon House Park Lane"
Era a maneira de ele se corresponder secretamente com Olive, sobre instruo desta ltima, quando eles estavam tendo seu ajjaire de coeur e que ele pensara cinicamente 
que outros homens deviam ter recebido as mesmas instrues.
Abrindo o cofre que tinha no escritrio, tirou dele cinquenta libras em notas, e dez soberanos que colocou em seu bolso. Voltou para o acampamento dos ciganos, deu 
primeiro o dinheiro para Buckland e depois a carta com a instruo de que seu filho deveria entregar o garanho ao criado na cavalaria que estava por trs da Brandon 
House em Park Lane.
Recomendou tambm para ele assegurar-se, ao entreg-la,
que a carta fosse levada imediatamente para dentro de casa.
Luke ficou encantado com a generosidade do duque, que lhe
oferecia dez soberanos por seu servio, e o chefe dos ciganos
agradeceu reiteradas vezes por ter comprado o cavalo.
- Ns estamos de partida, milorde - acrescentou ele -, to logo Luke retorne, e queria desejar a milorde e sua esposa felicidade, longa vida e grande nmero de filhos!
- Obrigado, Buckland - respondeu o duque. - Isto  o que estou rezando para ter.
Voltou para casa, onde encontrou Janet acordada e sentindo sua falta.
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Tomaram o desjejum juntos na sala de estar onde haviam jantado e o duque achou sua mulher ainda mais linda  luz da manh.
- Por que no me disse que ia cavalgar - perguntou ela com leve censura. - Teria ido com voc.
- Queria que voc descansasse - explicou ele. - Estava planejando irmos cavalgar juntos mais tarde.
Seus olhos a contemplavam com carinho quando perguntou com toda delicadeza:
- Eu a fiz feliz na noite passada, minha doce princesa? Ela o fitou, e por seus olhos soube a resposta antes que
falasse:
- To feliz. que pensei que devia ter sido um sonho. Porque ningum me disse que. o amor era to maravilhoso e to perfeito que eu sinto ainda. como. se estivesse 
flutuando no cu.
- Comigo, eu espero - brincou o duque. - Se eu souber que voc est flutuando sozinha ficarei muito assustado com o pensamento de perder voc.
- Oh, Hugo - disse Janet impulsivamente. - Eu te amo tanto! No sabia que um homem podia ser to gentil e ao mesmo tempo to forte e to. excitante.
- Queria excit-la, minha linda esposa - admitiu o duque.
- Tinha somente medo de assust-la e que voc quisesse fugir de mim.
Nunca. nunca faria isso! - respondeu Janet com uma nota de paixo em sua voz. - No quero deix-lo nunca, nem por um momento do dia ou. da noite!
O duque percebeu que ela estava pensando na espada de Dmocles pendurada sobre suas cabeas sob a forma de Olive.
Queria que alguma intuio lhe garantisse que tudo estaria bem, mas ao mesmo tempo pensou que, se seu plano tivesse xito, ela nunca deveria saber que ele o promovera.
Sendo muito mais fcil no falar de seus pensamentos, o duque f-la levantar da mesa do desjejum e aproximar-se da Janela para olhar em direo ao parque.
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- Hoje - comeou ele tranquilamente -, iremos explorar os lugares de que lhe falei na noite passada. Como no quero, meu querido amor, dividi-la com mais ningum, 
se algum perguntar por ns, Jackson tem instruo para mand-lo embora.
- Isto era o que queria que voc dissesse.
Assim falando se aproximou dele e ele a abraou. Depois a beijou apaixonadamente e disse:
- Agora, minha amada, v vestir-se, enquanto peo que preparem nossos cavalos para daqui a meia hora.
- Ento, preciso me apressar! - entusiasmou-se ela. Correu para seu quarto e o duque voltou a olhar para o
parque, pela Janela.
Mas quase no via o sol dardejando entre as espessas folhas dos carvalhos e resplandecendo ofuscante sobre o lago.
Ele estava rezando como no rezava desde criana, com fervor, com uma f quase infantil de que suas preces seriam atendidas.
Passaram um dia to encantador que a Janet pareceu mgico como um conto de fadas.
O duque mostrou-lhe a fonte encantada nos bosques que se supunha ser frequentada por ninfas.
No cume de uma rvore, o carpinteiro do duque construra para ele uma vigia, de onde podia contemplar muitos quilmetros das terras que lhe pertenciam.
Visitaram no somente os bosques, mas tambm cavalgaram seguindo o riacho prateado que alimentava o lago e viram os peixes midos brincar na gua clara sobre o fundo 
pedregoso, e para alegria de Janet vislumbraram um martim-pescador.
Tudo isso a fascinava, pois ela tinha o duque a seu lado e podia ver o amor em seus olhos.
Instintivamente, suas mos se estenderam para tocar-se, suas vibraes juntaram-se e novamente foi quase como se ele a possusse.
Almoaram nos limites da propriedade do duque numa pequena hospedaria branca e o dono da hospedaria os recebeu com prazer.
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Comeram presunto caseiro, queijo com po recm-tirado do forno e beberam cidra feita em casa.
Voltando a cavalo para casa, Janet disse com um suspiro:
- Como poderei suportar que. este dia... termine?
O duque entendeu que ela estava tentando dizer que talvez no houvesse um amanh, mas respondeu alegremente:
- Haver muitos dias iguais a este, minha querida, e at melhores.
- Se somente pudesse acreditar nisso - sussurrou Janet, e ele percebeu que mais uma vez ela estava preocupada.
Como no queria que ela pensasse em outra coisa a no ser em sua felicidade, quando voltaram ao castelo, o duque insistiu para que descansasse antes do jantar.
Mas ela protestou:
- No quero que voc me deixe! - Seus olhos piscaram respondendo.
- Quem falou em deix-la? Janet suspirou:
- Oh, querido, Hugo, por que eu no pensei nisso? Sendo assim, claro que precisamos descansar.
Ela foi para o quarto e, quando o duque a alcanou, as venezianas estavam corridas porque o sol da tarde era ofuscante, e por baixo das cortinas da cama de dossel 
cheio de cupidos Janet parecia pequena e etrea.
Ao mesmo tempo, ela era to desejvel que o duque teve certeza de que nunca mais em sua vida ele iria querer ver o rosto de nenhuma outra mulher que no fosse o 
dela.
Mais uma vez eles jantaram na sala de estar, pois, como falou o duque, eles estavam ainda em sua lua-de-mel.
Somente quando reassumissem suas obrigaes sociais teriam de
 comportar-se de modo tradicional.
- Gosto de ter voc s para mim - disse Janet. -  muito mais fcil conversar sem criados na sala, a no ser para trazer as travessas, e tendo somente as flores 
para escutar-nos e sua fragrncia para nos tornar romnticos.
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- com voc posso sentir-me romntico mesmo sem flores
- protestou o duque.
- Sinto a mesma coisa - respondeu Janet. - Oh! Hugo, Hugo, como tivemos sorte! Estou guardando a lembrana de cada momento, de cada segundo que passamos juntos!
Falava com uma intensidade apaixonada, mas o duque percebeu que, sem nada dizer, ela olhava com suspeita o fresco salmo que estava sendo servido e que prendeu a 
respirao quando Jackson ofereceu-lhe o vinho.
Era impossvel para Olive envenenar o vinho que guardava em sua prpria adega, por isso o duque insistiu em beber somente de uma safra excelente que trouxera da 
Frana no ano anterior.
Ao mesmo tempo, tinha cincia de que Janet tentava disfarar seu pavor, mas a cada bocado que ele comia ela se punha nervosa.
"No podemos continuar assim!", pensava ele.
Eles teriam outra noite para passar antes que ele pudesse saber se o presente por ele enviado a Olive dera resultado, ou se errara o alvo como aquele que ela lhes 
enviara.
Mr. McMullen informara-o, na ausncia de Janet, que o mdico diagnosticara que o colapso do criado fora um grave ataque do corao.
- O mdico comentou, Vossa Alteza - Mr. McMullen relatara -, que era de estranhar, pois ele conhece a famlia de James muito bem e no h entre seus parentes, irmos 
e irms nenhum caso de distrbios do corao de nenhuma espcie.
O duque no fizera comentrios sobre o fato. Pediu apenas a Mr. McMullen para enviar uma grande grinalda para os funerais de James e assegurar-se de que a famlia 
recebesse suas condolncias e a promessa de que, assim que eles tivessem um outro filho com idade suficiente para tomar o lugar de James, seria bem-vindo no castelo.
No havia nada mais a fazer e no tencionava falar a Janet sobre este assunto.
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A nica maneira de mant-la feliz e sem medo era transport-la no arrebatamento do amor para o mundo do faz-deconta que haviam descoberto na noite passada.
Sendo uma coisa que ele mesmo desejava ardentemente, no foi difcil, aps o jantar, beij-la at que fosse impossvel pensar em outra coisa a no ser no amor.
Foi uma noite longa, mas muito feliz. No entanto, quando o duque acordou cedo como no dia anterior, havia uma expresso de ansiedade em seus olhos cinzentos.
Olhando para sua esposa adormecida, ele ponderou que, como cavalheiro que ela acreditava que ele fosse, havia enfrentado o drago. Somente precisariam passar ainda 
algumas horas antes de saber se seu ataque violento tivera xito. Outra vez ele foi cedo at os estbulos e, cavalgando no mesmo caminho por ele percorridos no dia 
anterior, chegou at o bosque onde os ciganos haviam acampado.
Agora no havia sinais deles, com exceo das cinzas de sua fogueira no descampado e das marcas das rodas de suas carroas. S por um momento, naquela quietude, 
o duque refletiu se ele haveria sonhado todo o episdio e se o esplndido garanho branco teria sido somente uma alucinao de sua imaginao.
Ento, como precisasse conhecer a verdade, galopou de volta ao castelo.
Mr. McMullen- havia tomado disposies para que, enquanto o duque residisse no castelo, um criado fosse buscar os jornais perto da estao, de forma que, se o trem 
estivesse dentro do horrio, eles chegariam aproximadamente s nove horas.
Chegando ao castelo, o duque no subiu as escadas, mas foi para seu escritrio, pois sabia que seu secretrio levaria para l os jornais assim que eles fossem entregues.
Somente poucos minutos depois das nove, Mr. McMullen entrou no escritrio. Ele trazia na mo trs jornais e antes de deposit-los em frente ao duque disse:
- Estou aflito, Vossa Alteza, por trazer ms notcias.
- Ms notcias? - perguntou o duque com aspereza, pensando 
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por um momento aterrador que tivesse acontecido algo com Janet.
- Sim, Vossa Alteza - replicou Mr. McMullen. - Aconteceu um acidente com lady Brandon. Est na primeira pgina do The Times quanto do The Morning Post.
O duque no falou, mas pegou os jornais da mo do secretrio e viu que nos dois jornais havia cabealhos relacionados com a comemorao do aniversrio da rainha 
em Hyde Park.
Ento um pouco mais abaixo ele leu:
"Infelizmente nesta tarde ocorreu uma tragdia. Lady Brandon, uma famosa beleza da sociedade, conduzia doze das mais finas amazonas da Inglaterra que estavam se 
apresentando trajadas como as primeiras rainhas da Inglaterra. A prpria lady Brandon estava vestida como a Rainha Elizabeth I, e como Sua Majestade dirigia-se a 
suas tropas como se se aprontassem para enfrentar a armada espanhola.
Conhecida cavaleira, lady Brandon estava montando um esplndido garanho branco que obscurecia os demais cavalos montados pelas ladies que a acompanhavam.
Elas desfilavam no meio de grandes aplausos desde os palanques para o centro da arena, mas ento a tragdia aconteceu.
Algo deve ter irritado ou assustado o garanho branco porque fugiu num galope selvagem, dispersando os espectadores, e fez um esforo louco para pular a cerca de 
seis ps com estacas e arame farpado que circundava esta parte da arena.
Ele falhou o pulo, ficando empalado por alguns segundos nas estacas, at que, caindo, arremessou lady Brandon para a arena quebrando-lhe o pescoo.
Sua Senhoria morreu instantaneamente, e o cavalo, tendo quebrado uma pata, foi logo sacrificado.
 com o maior pesar que relatamos este fim trgico de uma famosa anfitri e mulher de um distinto homem de Estado. Lorde Brandon..."
O duque no precisava continuar a leitura da descrio dos cargos ocupados por lorde Brandon e das honrarias recebidas em sua longa vida.
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Largou o jornal, ciente de que Mr. McMullen o estava observando enquanto lia.
- Posso somente oferecer minhas condolncias a Vossa Alteza? - disse ele calmamente.
- Obrigado, McMullen - respondeu o duque. - Leve embora os jornais e destrua-os.
- Destru-los? - perguntou McMullen obviamente estarrecido com a ordem.
- No desejo que Sua Alteza os veja por enquanto - comentou o duque. - Isto a transtornaria e eu quero escolher o momento certo para dizer-lhe o que aconteceu com 
sua madrasta.
- Naturalmente, compreendo - replicou McMullen. - Os jornais sero destrudos antes que qualquer um da casa possa v-los.
- Obrigado - disse o duque. - Sei que posso confiar com sua total discrio.
Ele suspirou fundo, como se tivessem lhe tirado um peso enorme das costas, em seguida subiu os degraus de dois em dois rumo ao quarto de Janet.
Abriu a porta silenciosamente e descobriu que ela no estava acordada, mas dormindo tranquilamente. 
Ficou contemplando-a durante um longo perodo, pensando que a amava irresistivelmente e que sua situao agora era bem diferente.
Foi para seu quarto e comeou a despir-se, percebendo que no havia pressa em faz-lo.
No existia mais aquela sensao terrvel de que o tempo estava se escoando e que a qualquer momento poderia ser o ltimo, tanto para Janet como para ele.
Eles estavam a salvo, livres do medo de serem assassinados. Livres da ameaa de uma mulher diablica que estava determinada a destru-los.
O duque permaneceu por um momento  Janela e pensou que o sol nunca estivera to brilhante e to dourado, ento voltou para o quarto de sua mulher.
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Quando se enfiou na cama ao lado dela, pensou uma vez mais que no havia pressa de dizer-lhe o que havia ocorrido nem havia o temor que os fazia agarrarem-se um 
ao outro freneticamente, temendo que o instante vivido poderia ser o ltimo.
Colocou seus braos em volta de Janet, que balbuciou um murmrio de felicidade e se aproximou mais dele.
- Pode ser cruel de minha parte acord-la - disse o duque gentilmente -, mas quero beij-la e dizer-lhe o quanto a amo.
Ela abriu os olhos e viu o esplendor em seu rosto.
- Isto  o que quero que voc diga - respondeu ela. - A cada noite que estamos juntos penso ser impossvel amar mais voc! Agora eu te amo cem vezes mais do que 
antes de ir para a cama!
- Isto  verdade?
- Como posso faz-lo acreditar?
- Amando-me - respondeu o duque. - Minha querida, somente voc sabe o que isto significa para mim e quanto eu quero seu amor.
- Assim como quero o seu - sussurrou Janet. - Me ame, Hugo... peo-lhe que me ame. Eu sou sua... e quero ter certeza... de que voc...  meu.
- Eu lhe darei esta certeza - respondeu o duque.
Ento ele a beijou com exigncia, apaixonadamente, furiosamente e, enquanto fazia isso, sabia ter vencido sua cruzada: ele matara o drago e agora a princesa era 
sua para todo o sempre.
Pde sentir seu corao bater contra ele e soube que o fogo que o estava queimando incessante por dentro acendera uma chama nela tambm.
Isto era amor, o amor que estivera to perto de perder, o amor que Deus lhes dera e que os salvara de um demnio que os ameaava.
- Eu te amo! Eu te amo! - dizia Janet e o duque pde sentir a exaltao em sua voz.
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No havia necessidade de palavras.
Possuindo Janet, no somente pelo seu corpo, mas tambm por seu corao e sua alma, eles estavam ligados para sempre pela graa de Deus para toda a Eternidade.
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
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As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama'da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
